home cracatoa quem faz making of imprensa souveniers links contato
   

A cocada dos deuses

“Ele mexe com vendas”, era o que Vera costumava dizer na roda de amigas do clube quando perguntavam de seu filho Jefferson. Ela falava isso e depois trocava o assunto sem que ninguém percebesse. Conseguia enganar todos os presentes, mas no íntimo ela sofria. Sofria por ter um filho que nunca correspondeu a uma educação exemplar, isto é, estudou nos melhores colégios e teve todas oportunidades, mesmo assim ele hoje apenas “mexe com vendas”.

— É 4 cocada só paga 1 real, 4 cocada 1 real.

Tudo bem que não era o tipo de vendas que as amigas de Vera pensavam, pelo menos não podem dizer que Vera estava mentindo.

— É 4 cocada só paga 1 real.

É claro que ele não estava nesse negócio por livre escolha, foi por necessidade que acabou entrando no ramo das cocadas. Por intermédio da mãe chegou a arranjar boas colocações em renomadas corporações, porém nunca foi pra frente por ser muito atrapalhado.

Atrapalhado, atrapalhado é forma de dizer, na verdade Jefferson era meio pancada mesmo. De vez em quando ele misturava as coisas, trocava tudo, o que na maioria das vezes tinha resultados muito negativos. Como daquela vez em que levou o office boy para presidir a reunião e deixou o presidente da empresa para xerocar os formulários.

Por essas e outras, não demorava muito e ele acabava despedido. De emprego em emprego a história era sempre a mesma, por fim acabou vendendo cocada no terminal de ônibus Capão da Imbuia. O emprego não era dos mais promissores, dona Vera nunca aceitou bem a idéia, mesmo assim Jefferson seguia tranqüilo. Principalmente porque fazia muito tempo que ele não dava uma bola fora, por outro lado, nunca é tarde para isso.

Um dia desses, sabe-se lá porque, Jefferson se atrapalhou e acabou errando a frase que declamava todos os dias.

— É 4 real por 1 cocada.

Onde era para ele falar cocada, ele trocou por real e o real virou cocada.

— É 4 real por 1 cocada, eu disse 4 real por só 1 cocada.

Ele acabou trocando as bolas e sem saber provocou um aumento de mais de 1000% no preço do doce. Algo que nem a briga no oriente médio conseguiu fazer com a cotação do petróleo. As pessoas ao redor ficaram estarrecidas com uma cocada tão cara comparada às outras. Para ser tão caro, devia ser um negócio muito bom. Em pouco tempo a estranheza virou curiosidade e todos queriam provar aquela iguaria mais cara.

Não vou me esticar muito, mas em resumo: ele ficou rico, muito rico. As cocadas de 4 reais tomaram todo mercado cocadífero do país. As pessoas pagavam mais e juravam sentir um gosto muito melhor do que das antigas cocadas. Jefferson agora estava rico e sua mãe agora enchia a boca para falar que “meu filho mexe com cocada”.

— E agora, Jefferson, o que pretende fazer da vida? – perguntou Vera certa vez.

— Vou realizar meu sonho.

— E qual é seu sonho?

— É 4 filho e 1 esposa. Meu sonho é 4 filho 1 esposa.

Sempre que perguntavam do futuro ele dizia a mesma resposta:

— 4 filhos 1 esposa. Agora eu quero 4 filho e 1 esposa.

Porém, um dia desses, sabe-se lá porque, Jefferson acabou se enganando e trocando o sonho que gostava de contar sempre que perguntavam.

— 4 esposas e 1 filho. Meu sonho é 4 esposas e 1 filho.

Como agora ele era um sujeito bem de vida, mega-empresário da cocada, foi dito e feito. Arranjou as tais esposas e fez até um filho com uma delas. Os casamentos não duraram quase nada, mas as conseqüências jurídicas se arrestaram e terminaram por secar a mina de ouro e coco. Jefferson conseguiu perder tudo que tinha, não sobrando sequer uma cocadinha para contar história.

Mas Jefferson não desistiu, isso ele nunca faria. Mesmo depois de toda frustração dos casamentos e negócios arruinados, ele arrumou forças para começar uma nova empreitada novamente. Agora virou apenas um catador de papéis, ou como Vera prefere dizer, ele “entrou no ramo da reciclagem”. Jefferson passa o dia juntando coisas de papel que possam encher um carrinho, vendendo depois ao preço de 10 kg por 1 real. São 10 kg de papel por 1 real.

Não sei quanto a vocês, mas eu tenho a impressão que logo logo ele vai se enganar...

12 de abril de 2007

Muito bom, parabéns... Seria uma continuação de Dramas informais?

Beijos

Por: Isabela | setembro 12, 2005 12:18 AM

¨¨¨

Muito bom, parabéns... Seria uma continuação de Dramas informais?

PS: Adoro seus textos!

Beijos

Por: Isabela | setembro 12, 2005 12:18 AM

¨¨¨
 
 




> Pensamentos, ações e balas de anis
> Imprevisto atuando nos bastidores
> Paixões conforme o tempo
> Tudo em nome da emoção
> Desvio de vocação
> Numa dessas noites quentes sem sentido
> A vida imita a fofoca
> Quando os mananciais têm caminhos tortuosos
> A empresa... sou eu
> Quase heróis e quase homônimos

+ mais
 



 


E-mail do seu amigo:


Seu e-mail:



 
 


Receba um aviso por e-mail quando esta coluna é atualizada.

Seu e-mail:

Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução do conteúdo do site, desde que os autores sejam consultados. Para uso comercial, consulte também os autores. As opiniões dos colaboradores e dos comentários não refletem necessariamente a opinião do Cracatoa Simplesmente Sumiu.