Todo dia era a mesma coisa, Estevão se levantava cedo e era o primeiro a chegar na repartição. O primeiro a chegar e o último a sair, pois o chefe sempre arranjava alguma coisa extra só para ele. Tamanha preferência era devida à sua inquestionável eficiência, o que lhe valia uma carga muito maior de trabalho do que a dos colegas, que não implicava benefícios. Aliás, a única coisa que conseguiu ganhar com isso tudo foi a fama de puxa-saco, que circulava na hora do cafezinho.
— E daí? Tô pouco me lixando! – repetia para si mesmo.
Mas Estevão não era de ferro, também era um ser humano com vísceras, caspa, joanetes e sentimentos. Por mais que agüentasse bravamente toda hostilidade, por dentro se sentia mal, triste. Ele queria muito desabafar, relaxar uma vez, nem que fosse só uma. Uma risada, ele queria rir, não fazia isso há tanto tempo que até tinha se esquecido como se fazia.
Outro dia, na frente do espelho, ele até tentou rir. Escreveu numa folha e ficou lendo repetidamente “rá rá rá rá”. Não ficou satisfeito da primeira vez, tentou outra também sem sucesso. Percebeu que não era tão simples assim, a pessoa tem que fazer isso só que sorrindo. Nossa, daí era complicado! Sorrir é um troço muito chato, ter que ficar com a musculatura da boca distendida o tempo todo. Em pouco tempo começava a doer tudo, teve que parar com medo de dar câimbra.
Sentou-se novamente na poltrona e ficou matutando como poderia rir. Estalou os dedos e logo se levantou, Estevão tinha tido uma idéia. Rapidamente foi até à escrivaninha e remexeu tudo atrás de alguma coisa, atrás de um durex. Quando encontrou, se dirigiu ao espelho do banheiro para ver se daria certo. Com a boca, cortou dois pedacinhos e colou um em cada bochecha, puxando os cantos da boca e simulando um sorriso. Mas aquilo não tinha graça nenhuma.
No dia seguinte, antes que voltasse para o trabalho com a cara de sempre, deu de cara com os dizeres de um cartaz colado num poste: “Pacote Risada por apenas R$ 250”. Como é? Sem entender ele leu novamente “Pacote Risada por apenas R$ 250”. Como pode um negócio desse, ele pensou. Onde já se viu?
Mas aquela história tinha que ser passada a limpo. Como embaixo tinha o endereço, fez questão de averiguar o anúncio. “Pacote Risada”, ele nunca tinha ouvido falar numa coisa dessas. Para não ir desprevenido, foi ao caixa eletrônico e sacou R$ 250 no ato. Como ele ia dar conta das contas do mês ele não sabia, mas se desse certo ele ficaria rindo à toa.
Naquele dia ele saiu mais cedo da repartição, para a estranheza de todos. Seguindo as indicações de um conhecido, ele pegou o alimentador Cafundó do Judas para chegar ao endereço. Depois de muito viajar, ele desceu e teve que andar mais um bom tanto. Já estava pra lá de tarde quando chegou no local exato do cartaz, uma casinha velha de madeira. Para tirar logo qualquer dúvida, começou a bater palmas para chamar atenção.
— Pois não? – disse uma senhora saída da casa.
— O-oi, eu vi um cartaz na rua e gostaria de saber mais do Pacote Risada.
— Pacote Risada? O senhor vai querer quantos?
— Então existe mesmo?! Poxa, então eu quero um pra mim!
— Vai querer um? Vai custar R$ 400.
— Como é? – disse sem entender. – Mas no cartaz dizia R$ 250!
— R$ 250? Mas não custa R$ 250 não. Isso foi antes do aumento.
— Aumento? Poxa, mas o preço quase dobrou!
— Sinto muito, moço – se despediu quase fechando a porta.
— Espere, espere, não tem problema. Eu não tenho todo esse dinheiro no momento, mas, por favor, você não faz por R$ 250? Pode ser umas risadas usadas, meio velhas...
— Por R$ 250 eu tenho um Pacote Sorriso, se o senhor quiser...
— Pacote Sorriso? Então tudo bem, pode ser um Pacote Sorriso...
Estevão fez o negócio lá mesmo, R$ 250 por um Pacote Sorriso. Ainda na rua ele desembrulhou para ver do que se tratava. Estranhou o negócio, apalpou umas três vezes e até cheirou, mas acabou vestindo. Quando olhou para o espelho, viu sua imagem refletida com um magnífico sorriso, brilhante e reluzente, era um sorriso de comercial de creme dental. Naquele dia, ele voltou feliz da vida. Era quase meia-noite quando Estevão chegou em casa com o sorriso de orelha a orelha. Mas antes mesmo de tirar os sapatos, ele se dirigiu até o espelho do banheiro, desdobrou a folha e começou a recitar: “Rá rá rá rá!”.
12 de abril de 2007

