Aos olhos humanos aquela parecia ser um jantar entre amigas comum como em tantos outros lugares. Dona Bete, anfitriã e católica, colocava seus dotes culinários mais uma vez à prova com uma carne cozida com batata e brócolis que dizia ser de sua autoria, embora todos soubessem que semelhante receita havia sido apresentada num programa de uma loira com um louro. Ao término do suspense, os convidados se depararam com uma carne seca e dura como o casco de uma tartaruga. Para justificar a dificuldade de cortar a gororoba, foi atribuído às facas o fracasso. No final da noite, a carne permaneceu intocada a espera de um corajoso que vencesse a rigidez. Foi o dia mais triste da vida de Bete. Ciente do fracasso, acabou nem lavando a louça, se trancando no quarto para chorar. Começaram neste momento as desavenças.
Na cozinha abandonada, o garfo foi o primeiro a fazer acusações. Dizia que a faca estragara tudo como de costume, merecendo umas boas espetadas como punição. Mas as facas não eram lá de escutar caladas, e com seu linguajar afiado foram logo acusando os garfos de não imobilizarem adequadamente a carne, algo que até talheres de festa infantil eram capazes de fazer. O clima de bate-boca continuou acirrado e, no canto da pia, as colheres apenas observavam, coradas de vergonha e do resto do pudim de papaia da sobremesa.
Esse tipo de coisa as colheres já estavam acostumadas a ver. Na verdade, há muito mais tempo do que se pode imaginar, desde quando chegaram num navio até a família de Bete. Era um lindo conjunto de talheres de prata vindo da terra da rainha e que chegou com presente de casamento para o bisavô e a bisavó. Naquele época, garfo e faca ainda se davam bem. A descoberta de um novo país, nova cultura e, principalmente, uma nova cozinha os fascinavam. Nunca se esqueceram da primeira vez que cortaram uma carne de tatu, aquilo era excitante. Porém, em pouco tempo essa fase de entusiasmo acabou, a monotonia de um casal que nunca saía para sequer almoçar fora acabou com o período de romantismo. Nesses anos todos, os talheres de prata acabaram perdendo aquele brilho natural de outrora.
A partir daí, a relação entre eles entrou em uma curva descendente. Algumas vezes até, a colher presenciou encontros suspeitos do garfo com uma faca mais nova, que fazia o gênero aventureira com cabo de madeira. A faca de prata foi ainda menos discreta, sendo flagrada diversas vezes com o garfo de churrasco num clima bastante quente. Daí, quando as brigas vinham, era sempre a colher que tinha que apartar. Contudo, por uma questão de temperamento, em vez de puni-los, acabava sempre dando uma colher de chá com bolachas.
Todavia, a briga de hoje tinha sido de longe a pior. Enfurecida, a faca avançou sobre o garfo tentando, é claro, esfaqueá-lo. O garfo, sabendo que a faca estava cega, esquivou-se fugindo do golpe mas expondo a escumadeira que nada tinha a ver com a história. Com o impacto, a escumadeira despencou da pia, tendo seu cabo entortado interrompendo uma carreira que totalizava mais de 500 bolinhos de bacalhau além de milhares de quibes e coxinhas. A revolta então foi imediata e a gritaria de talheres seria ensurdecedora se pudesse ser ouvida. Até mesmo o fogão com tantas bocas fechadas se pronunciou, não que isso significasse algum argumento, na prática o que ocorreu foi um grande vazamento de gás. Logo o cheiro do gás tomou conta de toda cozinha e tomados pelo desespero. A panela de pressão ainda tentou apitar tentando organizar, mas os talheres começaram a correr para todos os lados, trombando entre si até que uma faísca definitiva iluminou a cozinha escura.
E a pobre Dona Bete, que ainda chorava no quarto o desastre do cozido, nem teve tempo de presenciar o outro desastre que acordou toda cidade naquela noite. Depois que os bombeiros apagaram o fogo e os legistas buscavam alguma pista que explicasse o ocorrido, o corpo de Dona Bete foi encontrado com a carne seca e dura, só que desta vez sem batata e brócolis.
12 de abril de 2007

