Não sei bem como contar, mas de uns tempos pra cá reparei que estou sendo confundido com outra pessoa. Confundido, você sabe: quando acham que você é uma pessoa e na verdade é outra. É isso que vem acontecendo comigo, venho sendo confundido. Até aí tudo bem, mas essa história vem gerando uma situação um tanto quanto engraçada e acho que vale a pena contá-la.
Quando ando pelos corredores da universidade, sempre encontro amigos e conhecidos, afinal de contas, já faz uns cinco anos que sou figura constante naquele lugar. Dessa forma, basta um passeio rápido para que “como vai?” e “tudo bem, e você?” sejam distribuídos várias vezes, faz parte da rotina. Embora o contato com essas pessoas já possa ter sido deixado de lado há algum tempo, não seria muito difícil recordar de onde conheço cada um. E foi assim, recordando de cada um, que comecei a estranhar uma pessoa.
Bastava cruzar no corredor com essa pessoa que ela sempre me cumprimentava. Nada mais cortês, cumprimentar um amigo. Mas aí é que estava o mais estranho, eu não conhecia o cara. Não conhecia e ele me cumprimentava como se fosse um amigo de longa data. No começo estranhava e pensava que era com outro que ele estava falando. Que nada, era comigo mesmo. Bom, sendo assim, também passei a cumprimentá-lo.
— E aí? – perguntou ao cruzarmos no corredor.
— Beleza! – respondi rapidamente.
Cumprimentava porque achava que seria uma tremenda antipatia perguntar “Eu conheço você?”. Além do mais, se estivesse andando pelo centro da cidade e alguém passasse de carro me soltando um baita xingamento, devolveria outro palavrão na lata, independente de quem fosse. Arco-reflexo, entende? Se me xingasse, eu também xingava. Se me cumprimentasse, eu também cumprimentava.
— Quer dizer então que se ele desse uma piscadinha você também piscava? – me interrogou um colega cheio de malícia.
— Como é?
— Você tá dizendo que se te cumprimentasse você cumprimentava, se te xingasse você xingava. Bom, então quer dizer que se ele te mandasse um beijinho você também...
— Pode parar, pode parar – interrompi a conversa que já desandava pro outro lado.
— Não misture polidez com “boiolez”.
— Eu se fosse você ficaria bem atento com esse cara – decretou por fim.
Aquela situação estava ficando cada vez mais estranha e eu não sabia mais como agir. Por mais besteiras que o meu colega tenha dito, acabei ficando com a pulga atrás da orelha. Essa história do cara ficar me cumprimentando sempre que me via estava muito mal explicada. Numa dessas, eu, em vez de ajudar, só estava piorando ainda mais, devolvendo o cumprimento posso acabar sendo mal interpretado. Complicado, muito complicado.
Passei a andar o mais discretamente possível, evitando ao máximo ficar de bobeira, parado nos corredores da universidade, pelo menos até que tudo se esclarecesse. Ao mesmo tempo, tentava lembrar onde diabos eu poderia conhecer o figura, esforço todo em vão.
Certo dia, porém, estava me dirigindo à cantina quando o movimento de um casal namorando no banco me chamou a atenção. Quando chego mais perto, para a minha alegria, constatei se tratar do tal camarada que me cumprimenta nos corredores. De tão aliviado que fiquei, fiz questão de tomar a iniciativa do cumprimento.
— E aí, beleza?
— Beleza – respondeu rapidamente.
Conversa terminada, segui em frente livre de qualquer preocupação sobre esse assunto. Ufa, bom poder voltar a agir normalmente sem medo de ser mal interpretado. Da próxima vez que me cumprimentar, eu cumprimento. Do mesmo jeito, se me xingar eu também xingava...
Bastou eu sumir daquele corredor para que o casal retomasse a conversa.
— Quem é esse cara? – perguntou a moça.
— Esse aí? Ahn, sim, falei dele pra você. É aquele cara que quando encontro sempre me cumprimenta e que eu nunca vi mais gordo!
— Você nem conhece e ele sempre te cumprimenta? Poxa, meu bem, eu se fosse você ficaria bem atento com esse cara...
12 de abril de 2007

