“Não quero que vocês se assustem, mas o relato de hoje é uma história triste, muuito triste”, alertou o apresentador do programa.
— Ai, meu Deus – exclamou dona Leocádia.
“Me sinto na obrigação avisar que os fatos que iremos apresentar hoje poderão causar uma certa revolta ou até despertar sentimentos extremos nos telespectadores. Sendo assim, sugerimos às pessoas mais sensíveis e susceptíveis que troquem momentaneamente de canal porque, após os comerciais, iremos apresentar a fantástica história de Mick, o homem criado dentro de um banheiro público.
— Ai, meu Deus!
“Nossa história se passa no município de Quirinópolis, no estado de Goiás, perto da divisa com Minas Gerais. Estamos no ano de 1956 e a cidade vivia um período de muitas expectativas. JK tinha sido eleito e a população estava eufórica na esperança de um grande progresso. Em Quirinópolis, uma grande comemoração acontecia próximo ao centro da cidade, era a inauguração da rodoviária local, que ganhava dimensões inimagináveis para a época.
“Tudo na rodoviária tinha proporções fora dos padrões. A garagem, a bilheteria, os portões de embarque, tudo foi projetado para abrigar a maior metrópole do interior do país. Outra coisa que chamava atenção era o banheiro, seguramente o maior banheiro já construído naquele período. Para cuidar do complexo conjunto sanitário, um funcionário foi contratado especialmente, o senhor Adamastor Carlos Sobrinho.
“Adamastor era o responsável pela administração do banheiro, privando pela manutenção e conservação do local. Nos primeiros meses, um grande movimento acontecia em Quirinópolis, ônibus lotados de passageiros animados em conhecer o “Banheiro com Maior Número de Privadas da América Latina” chegavam a todo instante. Foi em um desses dias que tudo aconteceu. Enquanto Adamastor fazia a ronda habitual, um certo ruído lhe chamou atenção. Seguindo a origem do som, logo abaixo do mictório, ele encontrou um estranho pacote. Quando abriu veio a surpresa: tinha uma criança dentro.
— Ai, meu Deus! – dona Leocádia leva as mãos à boca.
“Uma criança linda e saudável abandonada dentro do banheiro. Adamastor ainda procurou os pais do rebento, mas já era tarde. Decidiu, então, cuidar do menino. Como o banheiro era um verdadeiro palacete, montou ali mesmo o quarto de Mick, nome que deu como referência do local onde foi encontrado. O pequeno Mick passou a viver lá sem que ninguém sequer desconfiasse.
“Mas o tempo foi passando e Mick foi se tornando um homem. Um homem que jamais tinha saído de dentro do banheiro e achava que o mundo se resumia a papéis toalha e sabão líquido. Adamastor sempre cuidou para que Mick jamais saísse de lá, contando histórias horríveis de gafanhotos gigantes e baratas cascudas. Mick, por sua vez, não tinha vontade de sair, o banheiro era uma fortaleza onde ele tinha tudo que precisava.
“Um dia, porém, a tranqüilidade daquele lar foi abalada seriamente, tudo por causa de uma revista. Um passageiro esqueceu nas dependências do banheiro uma revista masculina que trazia fotos de algo que até então Mick nunca tinha visto. As páginas recheadas de mulheres desnudas culminavam com um pôster que trazia uma loira monumental em cima do caminhão de bombeiros.
— Ai meu Deus – dona Leocádia disse vendo a foto da loira turbinada.
“Depois que viu o conteúdo da revista, Mick ficou inquieto e decidiu sair daquele lugar. Naquela altura, o banheiro que chegou a ser chamado de “Babilônia Sanitária” estava decadente. Quirinópolis acabou não tendo o crescimento esperado e deixou de ser rota do capital agropecuário local. Por outro lado, Mick sabia que Adamastor jamais o deixaria sair, mas ele estava decidido.
— Papai, você podia vir aqui por um instante? – Mick chamou escondendo uma faca por entre as pernas.
“Duas horas mais tarde, Mick era visto pela primeira vez saindo do banheiro da rodoviária com a revista debaixo do braço. Mesmo com todo deslumbramento da vida fora do banheiro, ele caminhava a passos largos em busca do que queria. E o queria estava dentro da revista.
— Ai, meu Deus – disse dona Leocádia já pensando em besteira.
“No final daquele dia fatídico, o corpo de Adamastor foi encontrado dentro daquele banheiro fétido. Ele tinha morrido engasgado com o bolo que Mick tinha dado como presente de despedida. A polícia ainda tentou comunicá-lo, mas Mick já estava muito longe naquela hora, realizando o seu maior sonho. Com as mãos ainda trêmulas e um olhar apaixonado, ele alisava a coisa mais linda que já conheceu. Mick conseguiu subir no caminhão de bombeiros.
— Ai, meu D... caminhão de bombeiro?
12 de abril de 2007

