As pessoas enxugavam o suor da testa dentro do trem, fazia muito calor no México e Johnny Le Bravo estava feliz em deixar o Texas. Finalmente ele poderia encontrar sua fiel esposa Suzanne, com quem namora desde a adolescência, e cuidar do pequeno Kevin, o primogênito do casal. Porém, embora o momento de alívio ficasse evidente, muita coisa ainda tinha para acontecer. O livro ainda estava apenas na metade e "emoção até a última página!" era o slogan da editora.
Tudo bem, já deve ter dado pra notar que não se trata de uma grande leitura, algo que acrescente muita coisa. James Allen também não era um autor dos mais renomados, eu sei, dizem até que na verdade trata-se do codinome de um "João da Silva" que escreve essas histórias de faroeste baratas. Leitura de ônibus, eu me defendo, pois só leio os bang-bangs dentro dos coletivos, como agora.
Johnny Le Bravo era o protagonista da coleção, um vaqueiro do Kansas que teve que aprender a se virar para sobreviver no velho oeste. Agora ele só cochilava no trem retornando do Texas, onde cuidou da venda de umas cabeças de gado. Mas se fosse necessário, ele sacava a pistola sem pestanejar, era o gatilho mais rápido do Mississipi ao Alabama.
Mas enquanto Johnny Le Bravo cochilava no trem, eu por aqui tentava prender os olhos na leitura dentro do ônibus. Ainda bem que eu estava sentado, privilégio de poucos, apenas idosos, gestantes, deficientes e pessoas com cara de pau. Cara de pau como eu e aquele índio lá fora montado a cavalo. Índio lá fora??
Rapidamente arrumo o chapéu e vejo pela janela um índio acompanhando o trajeto do nosso trem. Trem? Levanto do assento e me vejo de botas, trajado de cowboy. Ao meu redor, um monte de sujeitos a caráter, vaqueiros e damas dentro de um trem de passageiros. Será isso alguma piada? Notando minha surpresa, um sujeito mascando fumo chega perguntando:
- Algum problema, Johnny?
- Johnny?
- Qual é, Johnny, parece que viu um fantasma. Sente-se aí, daqui a pouco chegamos a Monterrey e tomamos um refresco.
- Obrigado, Ramirez - respondo sem entender.
Sabe-se lá como, aquele sujeito era Diego Ramirez, fiel ajudante de Johnny Le Bravo. Eu sabia disso porque ele estava em todos os livros. Mas como podia? Eu estava no ônibus lendo um livro de Johnny Le Bravo e no minuto seguinte eu estava no lugar dele, nessa mesma viagem de trem com destino a Monterrey, no México.
Me seguro na poltrona incrédulo com essa absurda troca de lugares. No corpo, o figurino completo de Johnny Le Bravo veste quem era antes o simples André, um jovem como tantos outros no século XXI. Tinha até duas pistolas cromadas na cintura, algo que deixe qualquer homem impressionado.
Quando vou apanhar uma delas na cartucheira, noto um pequeno livro preso no canto do assento. Pego e dou de cara com uma foto minha, com o título "Um jovem como tantos outros do século XXI". Folheio com uma tremenda curiosidade e o que vejo é ainda mais impressionante: era a história da minha vida!
Estava tudo lá, meus empregos temporários, meus romances frustrados, minhas piada sem graça, tudo verdade. Aquilo não tinha pé nem cabeça, o romance faroeste era agora realidade e minha vida real tinha virado romance barato. E bota barato nisso, só naquele instante pude perceber o quanto minha vida era comum, sem grandes aventuras e fortes emoções. Ainda bem que agora eu era Johnny Le Bravo, essa sim era uma vida emocionante.
Quando olhei novamente para o livro com a vida do André, fui tomando por uma imensa curiosidade, o que o futuro reservava para ele? Abri em uma página aleatória, de algo que ainda estava por vir, e meus olhos se arregalaram com a foto de um carro conversível e uma moça loira sorridente. Ao lado dela, lá estava eu, mais velho, sorridente e fumando um charuto. Eu estava rico!
Poxa vida, se soubesse que ia ficar rico e bem de vida não teria trocado de lugar com Johnny Le Bravo. Ele pode ter uma vida emocionante, mas no fundo no fundo era só mais um bang-bang barato cheio de índio e cavalos. No meu livro eu estava lá, de carro conversível e uma loira linda de morrer. Tentei voltar umas páginas para descobrir quem ela era, quando a conhecia. Porém, sou interrompido por um grito bem alto, era o índio montado a cavalo que decreta o início do ataque ao trem.
Sou obrigado a abandonar a leitura quando índios invadem pela janela em pleno trem em movimento. Momentos de tensão se instalam até que Johnny Le Bravo saca sua pistola e acaba com a ameaça. O trem ainda estava cheio de índios e a situação é das mais desesperadoras, mas quando Johnny Le Bravo está presente são os inimigos que devem temer. O desfecho dessa história eu não sei, mas pelo tipo de livro dá para imaginar que o bang-bang é barato, mas o final é feliz.
12 de abril de 2007

