— Tudo bem, meu amor, tudo bem... – disse passando a mão carinhosamente na franja de Eugênia. – Pode escolher a cor que você quiser.
Mais uma vez Afrânio evitava uma discussão fazendo os desejos da esposa. Começo de casamento é assim mesmo, o marido atende qualquer pedido, qualquer capricho da noiva. Mas esse era o jeito normal de Afrânio, calmo e pacato, do tipo que faz qualquer negócio para evitar um briga, ainda mais com Eugênia. Topou até pintar a casa de laranja, a última idéia da moça.
Tá certo que a moradia andava precisando de umas cores, porém, nem tantas assim. Cor de laranja era demais para ele, um cara tão discreto. “O que a vizinhança iria pensar?”, conversava com o travesseiro. Mesmo assim não teve jeito, em poucos dias o laranja podia ser visto nas paredes e muros, do piso ao teto. Por sorte a casa era tão pequena que não precisou gastar muito, poucas latas deram conta do recado. O resultado podia ser avistado de longe.
Como Afrânio previu, a vizinhança caiu de pau. Gente criticando e falando mal era o que mais tinha. Até gente que nem viu o resultado final apareceu só pra falar mal. Mesmo assim Eugênia ficou feliz, uma casa cor de laranja sempre foi seu maior sonho. Passou-se um tempo, quando a vizinhança cansou de pegar no pé deles, a cor laranja começou a proliferar na rua. Uma casa aqui, outra lá, tudo muito espontâneo e sem fazer alarde. As donas de casa passaram a exigir de seus maridos uma pintura alaranjada em seu lar.
O subúrbio começou a ficar diferente e finalmente a imprensa se deu conta disso. A televisão, que só visitava o bairro no noticiário policial, fez uma matéria destacando a cor laranja dos barracos. A essas alturas, Eugênia podia jurar que eles tinham sido os primeiros que ninguém acreditaria. Nas lojas de tintas, as cores laranjadas entraram em falta, as listas de espera aumentavam e as fábricas tiveram que dar horas extras para dar conta dos pedidos. Mais do que nunca, estar na moda era estar laranja.
Em Washington, o secretário de Defesa dos Estados Unidos chegou atordoado ao gabinete do presidente Bush. Ele tinha revelações bombásticas, só visíveis em fotos de satélite. No oriente médio estava tudo normal, judeus e palestinos se matando, homens bombas pipocando aos milhares, mas a grande ameaça não estava lá, estava na América Latina.
As fotos eram bastante claras, um lugar antes residencial estava assumindo uma estranha coloração alaranjada, “Alaranjado do Mal”, como passaram a chamar. Obviamente aquilo não poderia ficar assim, imediatamente Bush pediu explicações ao governo brasileiro, mas sem querer acabou mandando a mensagem por engano a Buenos Aires.
Como não conseguiu uma explicação sobre o “Alaranjado do Mal”, o governo americano resolveu tomar uma atitude por conta própria, isto é, cancelou todas importações de laranja provenientes do Brasil. Além disso, resolveu bombardear a Síria só por cautela.
Por aqui, o incidente das laranjas só serviu para deixar a coisa ainda mais preta. Protestos e passeatas se seguiram por todo mês, com direito a manifestantes apedrejando a embaixada americana com laranjas pêra. No governo, os desempregados da fruticultura obrigaram o presidente Lula voltar à China para divulgar o suco de laranja. Os produtores tentavam convencer que rolinho primavera e suco de laranja era uma combinação dos deuses, seja Deus ou Buda.
As investidas deram certo, na China o suco de laranja virou sensação. Navios carregados de laranja deixavam o porto enquanto outros de bandeira chinesa chegavam carregados de muamba. Nunca se viu tanta muamba circulando em terras brasileiras. Era tanta que as lojas 1,99 tiveram que abaixar o preço e passaram a se chamar Loja 1,92. Os falsificados dominaram o mercado.
Em Washington, o secretário de Defesa voltou ao gabinete de Bush. As empresas americanas estavam quebrando por causa dos falsificados provenientes do Brasil. A rota China-Brasil-EUA de muamba chegou ao conhecimento do Tio Sam. Rapidamente, o senhor aposentado ligou para o governo e comunicou tudo. As relações entre Brasil e Estados Unidos, já desgastadas pelo incidente das laranjas, ficaram ainda piores. Os americanos passaram a suspeitar da presença de armas de destruição em massa em terras brasileiras.
— Roxo? Mas logo roxo? – pergunto Afrânio indignado.
— Mas é que o meu sonho, na verdade, sempre foi uma casa roxa... – disse Eugênia daquele jeito meigo que só as mulheres sabem fazer.
— Tudo bem, meu amor, tudo bem... – disse passando a mão na franja da esposa. – Pode escolher a cor que você quiser...
A casa ficou roxa e, sem saber, ele tinha acabado de salvar o país de uma desgraça.
12 de abril de 2007

