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Moradias transitórias

A porta do ônibus abriu e fiz força para vencer os degraus da entrada. O corpo estava se arrastando no fim daquele dia. Acho que até o motorista notou meu olhar tétrico diferente do habitual. Se não notou de imediato, deve ter percebido quando me sentei no banco desastradamente, como um trem descarrilando. Idosos, gestantes e deficientes que me desculpem, mas daqui ninguém me tira.

Coloquei a pasta no colo e respirei fundo pela primeira vez no dia. Ufa, pelo menos agora está tudo acabado, chega de formulários e documentos da repartição. Só de estar sentado aqui em paz é um bom motivo pra relaxar. Poxa vida, nunca pensei que esses assentos fossem tão confortáveis. Isso sem falar nessas mulheres maravilhosas fazendo massagem na gente. Mulheres maravilhosas?

Do sonho paradisíaco sou acordado com o chacoalhar repentino do ônibus. Era o motor sendo desligado. Só então me dei conta de que estava esse tempo todo dormindo, isto é, mulheres e massagens eram apenas obra da minha imaginação. Eu estava tão pregado que foi só me sentar que apaguei. E apaguei mesmo porque perdi a hora e o ponto!

— Motorista, aonde estamos agora?

— Onde estamos? Na garagem, ué...

Minha Nossa Senhora, era verdade! Olhei ao redor e vi dezenas de ônibus estacionados. Eu devo ter cochilado tanto que nem vi o ônibus recolhendo.

— Espere, espere aí, motorista... Eu devo ter dormido e acabei perdendo o meu ponto...

— Paciência...

— Paciência não, eu quero voltar pra casa! O senhor tem como me levar de volta até o meu ponto?

— Mas é claro – me tranqüilizou momentaneamente. — Amanhã começamos o itinerário às 7h32, a gente passa no seu ponto e você salta.

— Amanhã? Não, o senhor não está entendendo. Eu queria voltar ainda hoje!

— O que está acontecendo aí? – veio o cobrador de pijama e touca de dormir.

— O rapaz perdeu o ponto e está querendo voltar.

— Sem problemas, amanhã a gente vai passar por lá de novo.

— Só amanhã? – interrompi. — Mas onde é que vou dormir esta noite?

— Aqui, ora bolas – respondeu o motorista puxando o travesseiro.

Nesse instante finalmente me dei conta que eles estavam se preparando para dormir, só que dormir dentro do ônibus. Não resisti e perguntei se eles iam fazer isso.

— Dormir? Não. Nós moramos aqui – disse o cobrador.

— Sim, nós moramos aqui – o motorista acrescentou.

Puxa vida, nunca pensei que a situação habitacional já tinha chegado e esse ponto. Eles perguntaram se eu não morava no ônibus também, para estar aqui numa hora dessas.

— Morar no ônibus? Não, eu tenho uma casa – disse estufando o peito.

O motorista e o cobrador se entreolharam e por fim falaram:

— Grande coisa. O que adianta ter casa se você fica mais tempo aqui do que lá.

— É verdade, a gente sempre te encontra. Você fica horas e horas aqui todo dia. Aposto que tem uma foto da própria casa na mesa do escritório. Fica tão pouco tempo lá que tem que matar saudade de casa no trabalho.

Ia responder um desaforo quando lembrei da foto da fachada de casa em cima da mesa do escritório. Realmente era verdade, eu passava mais tempo no trabalho e no ônibus do que na minha própria casa. E quando chegava, geralmente estava tão cansado que nem tinha tempo para muita coisa, só a cama me interessava.

— Além disso, se morasse aqui no ônibus você nunca mais iria precisar pagar passagem para ir ao trabalho, já pensou?

— Somando a isso, o preço do aluguel que você economizaria daria um bom dinheiro no fim do mês – o cobrador lembrou.

Eles estavam certos. Podia parecer ridículo, mas se morasse dentro do ônibus nunca mais teria problema de dinheiro com a passagem ou com o aluguel. E olhe que para qualquer assalariado o aluguel e a passagem é quase todo ordenado. Mas aquilo não era decisão que se toma de uma hora para outra, eu tinha que pensar bem. Talvez fosse melhor eu aproveitar uma noite de sono para isso.

— Essa noite, onde eu posso dormir?

— Os passageiros ficam para lá – disse o motorista apontando para trás.

Quando me viro, vejo o ônibus todo repleto de passageiros de pijamas e cobertas. Pelo jeito há pessoas que já aderiram a esse novo estilo de habitação. Finalmente entendi porque determinados ônibus estão sempre cheios mesmo quando ainda é só de manhazinha...

12 de abril de 2007

Uma vez perdi o ponto, de madrugada. Saltei no meio do trajeto. Se soubesse que poderia encontrar tal cena, teria ficado até chegar à garagem...

Por: Alessandro Martins | julho 24, 2005 12:16 PM

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