home cracatoa quem faz making of imprensa souveniers links contato
   

Dramas informais

De frente para o espelho, Raquel se penteava com uma certa calma sinistra, o jeito que as mulheres ficam antes de fazer algo errado. Ela estava se preparando para quando o Jorge, seu marido, chegasse. Estava com tudo preparado, tinha arrumado a cesta. O que ia falar já tinha treinado direitinho, faltava só ele chegar.

Não sabia ao certo como Jorge reagiria, talvez entendesse seus motivos e lhe desse razão. Ou também podia se sentir traído e querer matá-la. É claro que ele não faria uma coisa dessas, era um sujeito calmo e pacato, mas por via das dúvidas ela esvaziou o revólver dentro da gaveta, lembrança da época de fartura.


Sim, naqueles tempos tudo era mais fácil, ele trabalhava na fábrica e ela tomava conta do lar. Não que não quisesse trabalhar, tinha sido uma exigência dele antes do casamento. “Mulher minha não fica sofrendo em emprego nenhum!”. No começo ela achou muito cavalheiro, o marido não querer que a mulher se desgastesse. Só depois de casado ela viu que o desgaste de casa lhe era suficiente. Apesar dos pesares, eles viviam bem. Ele não ganhava nenhuma fortuna, mesmo assim dava para os dois viverem com dignidade.


Isso foi até algum tempo atrás, quando o desgraçado do Factor Standart chegou à fábrica. Esse foi o nome mais xingado na casa desde então, o desgraçado do Factor.


Não, ele não era um senhor com nome diferente, esse era o nome de batismo da máquina que roubou seu posto de trabalho. Uma geringonça de ferro que fazia o mesmo serviço dele, com a diferença que não parava pro cafezinho nem levava o filho pra vacinar. Uma desumanidade, pode acreditar, na vida deles tudo mudou.


Caindo na realidade, ele não deixou a peteca cair. Pôs o currículo debaixo do braço e bateu de porta em porta. Mas chegando lá quase caiu pra trás, outra pessoa já tinha chegado antes: Factor Standart, o diabo da máquina que não toma cafezinho nem se importa se o filho pegar sarampo. Finalmente, depois de muito tentar, Jorge percebeu que não existe mais espaço para ele nas fábricas, os robôs desalmados tomaram conta de tudo.


Só isso por si só já seria um bom motivo para Raquel pular do barco, mas o pior veio depois, quando ele descobriu um novo trabalho. Se não tinha mais vagas nas fábricas e firmas, ele pensou que o ideal era um cargo público. Infelizmente ele não foi o único a ter essa idéia, prestou uns concursos sem qualquer chance. Se na formalidade a coisa tava preta, ele passou para o outro lado. Fazendo alguns contatos, Jorge conseguiu entrar no ramo de vendas.

— Pagando 1 real, é 3 isqueiro. Eu disse 3 isqueiro.
Tudo bem que não é nada muito fabuloso. É claro que ele merecia coisa melhor, de qualquer forma é o que ajuda a manter a família.
— 3 isqueiro, paga 1 real. Eu disse 3 isqueiro é só 1 real.

Parece um serviço simples, mas não é. Com o tempo ele aprendeu as estratégias para vender. Uma delas é falar a frase desse jeito, cheio de erros de concordância. Quanto maiores os erros, maiores os lucros. Ou melhor, quanto maior os erro, maiores o lucro.
— Leva 3 isqueiro, paga 1 real. É 3 isqueiro por 1 real.

Pra vocês pode até parecer engraçado, mas para a Raquel não tinha graça nenhuma. Seu casamento tinha se transformado num sofrimento, ainda mais depois quando notou pequenas seqüelas nele.

— Jorge, precisamos conversar – foi logo abrindo o jogo quando o marido chegou.
— Promoção: 3 isqueiro só 1 real. Eu disse 3 isqueiros só...
— Eu estou falando sério, Jorge...
— Com apenas 1 real você leva 3 isqueiro.

Não sei como explicar, mas parece que de tanto repetir essa frase ele só conseguia falar isso desde então. Era um tal de “3 isqueiro, 1 real” pra lá, “paga 1 real leva 3 isqueiro” pra cá, isso era o dia todo.

— Tomei uma decisão séria ontem à noite.
— Você paga 1 real e leva 3 isqueiro.
— Nessa situação que a gente está passando, me vejo forçada a fazer isso. Sei que você não vai gostar, mas não tenho outra opção.
— Por apenas 1 real, você leva pra casa 3 isqueiro.

Vendo que ele continuava com o papo dos 3 isqueiros, ela decidiu mostrar pra ele agora. Respirou fundo três vezes para tomar coragem, tirou a cestinha de cima da mesa e foi logo anunciando:

— Leva 4 cocada, paga 1 real. Eu disse 4 cocada paga 1 real!

12 de abril de 2007

Ha....ha...ha..hahahahaha

Por: Camila www.uniblog.com.br/surto | outubro 12, 2005 12:39 PM

¨¨¨
 
 




> Pensamentos, ações e balas de anis
> Imprevisto atuando nos bastidores
> Paixões conforme o tempo
> Tudo em nome da emoção
> Desvio de vocação
> Numa dessas noites quentes sem sentido
> A vida imita a fofoca
> Quando os mananciais têm caminhos tortuosos
> A empresa... sou eu
> Quase heróis e quase homônimos

+ mais
 



 


E-mail do seu amigo:


Seu e-mail:



 
 


Receba um aviso por e-mail quando esta coluna é atualizada.

Seu e-mail:

Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução do conteúdo do site, desde que os autores sejam consultados. Para uso comercial, consulte também os autores. As opiniões dos colaboradores e dos comentários não refletem necessariamente a opinião do Cracatoa Simplesmente Sumiu.