Algumas pessoas podem me chamar de louco, outras de corajoso, mas fato é que eu adoro me esbaldar nos cachorros-quentes do centro da cidade. Vocês sabem, aqueles cachorros-quentes cujos estabelecimentos só abrem à noite, inexistindo durante o dia. A partir de uma determinada hora, onde antes não havia nada, de repente, surge um carrinho de cachorros-quentes. É desse tipo de comida que estou falando.
Esse hábito eu adquiri há pouco tempo, quando os horários apertados e os compromissos noturnos diminuíram minha freqüência em casa para o jantar, a solução passou a ser comer pelo caminho. Foi então que os cachorros-quentes ganharam uma posição de destaque nas minhas refeições.
Passada a resistência inicial que tinha àquele ramo culinário, resolvi um dia experimentar. Lembro-me do momento em que a fome me trouxe a uma determinada praça do centro da cidade. Sentia as forças do corpo se exaurindo a cada passo e, quando dei por mim, estava esperando o preparo do cachorro-quente. Pouco depois, o senhor estendeu o braço me passando o precioso alimento.
Devo confessar que naquele momento não consegui distinguir qualquer gosto, o maxilar mastigava quase que sem o meu comando. Somente no final é que recobrei a percepção e pude sentir o sabor. Na verdade, aquela sensação não me tranqüilizou, ao contrário, um certo gosto permanecia na minha boca. Um sabor químico, não sei explicar, um gosto de coisa velha.
Obviamente aquilo não poderia ficar daquele jeito, quando o senhor se virou para o meu lado resolvi me pronunciar, mas a fome foi mais rápida:
- Pra mim mais um, ok?
Comi aquele segundo cachorro-quente com a percepção ainda mais presente, mas ainda assim devorei sem pestanejar. À medida que comia, tentei decifrar de onde poderia ter surgido o gosto inconveniente, parecia alguma coisa na batata-palha, nitidamente um gosto de veneno de barata.
Terminei a refeição pouco depois e paguei o senhor sem qualquer alarde, jurando nunca mais retornar àquele lugar.
Depois dessa primeira experiência nada feliz, fiquei um bom tempo sem me arriscar nos carrinhos de cachorro-quente, porém, a necessidade me fez optar por esse serviço novamente. Como ainda estava fresco na memória o sabor químico do primeiro lugar, procurei outro estabelecimento dentre os muitos que existem à noite. Escolhi um deles, cuja mulher sorridente passava uma certa confiança.
Quando ela começou a preparar, comecei a notar uma diferença nos ingredientes. Ao invés das maioneses estranhas e molhos bizarros de sempre, ela adicionava um cardápio mais natural, com direito a tomate, cebola, pepino, entre outros. Quando me entregou, analisei o aspecto e me certifiquei que não apresentava qualquer cheiro inadequado. Na primeira mordida veio a surpresa, o gosto era muito bom, diferente dos sabores habituais dos cachorros-quentes, mas muito saboroso.
Terminei a refeição e paguei com satisfação. Conclusão: desde então, sempre faço minhas refeições noturnas naquele lugar.
Segunda história
Já era noite quando despertamos naquele dia. As ruas estavam se esvaziando lentamente, é nessa hora que começamos a nos preparar para atacar.
Em pouco tempo, nos organizamos em vários grupos, todos com os seus locais definidos. Alguns iam para as lixeiras, outros para as lanchonetes e assim por diante. Eu fui designado para um carrinho de cachorro-quente, eu e mais 17 irmãs.
Estávamos numa praça do centro da cidade, quando avistamos o alvo, tudo como planejado. Aproveitamos o pouco movimento e entramos sem levantar suspeitas. O dono parecia distraído ouvindo rádio, o que nos deixou livres para efetuar a degustação.
Eu mal tinha começado o serviço quando fui interrompido pelos gemidos de algumas irmãs. Rapidamente me virei e vi Samantha, Dolores e Sisi agonizando balançando as patinhas. Elas tinham sido envenenadas!
Saímos de lá jurando nunca mais retornar àquele lugar. Com algumas irmãs ainda cambaleantes, seguimos em direção ao bueiro quando avistamos outro carrinho. O sorriso aberto da moça que atendia nos pareceu um bom presságio, fomos então para lá.
Subimos pelas rodas do carrinho sem chamar atenção. Ao chegarmos, notamos um cardápio diferente do habitual, mais natural. Embora não seja essa nossa preferência, a refeição nos caiu bem, pois não havia venenos nem coisa do gênero. Como a mulher só se preocupava em sorrir para a clientela, acabava não reparando no que acontecia em cima do carrinho. Resultado: fizemos a festa. Conclusão: desde então, sempre fazemos nossas refeições noturnas naquele lugar.
12 de abril de 2007

