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E o "au-au"?

Estava segurando a porta do elevador enquanto a mãe buscava a criança na escada do prédio. A mãe em questão não era a minha. Na verdade, apenas uma simpática vizinha com quem divido umas viagens de elevador. Eu estava segurando a porta enquanto ela pegava sua filhinha pequena.

Por fim, entrou com a criança no colo e começamos a viagem. Na distância que separa o 13º andar até o térreo, conversávamos qualquer coisa até que a mãe segura a mãozinha da criança e diz:

- Pergunta pro titio o que aconteceu com o "au-au".

O "titio" no caso era eu.

- Que acon... o "au-au"? - repetiu a menina com aquela vozinha de criança.

A frase não saiu perfeita. Também pudera, a menininha era bem pequena. Devia ter aprendido a falar há pouco tempo, estava naquela fase em que tudo que diz soa engraçado. Não sei exatamente quando é isso, aliás, no que diz respeito a idades de crianças eu realmente me perco por completo. Saber a diferença entre recém-nascido e pré-adolescente, por exemplo, é claro que eu sei. No primeiro caso eles aparecem recobertos de sangue, o que ajuda na diferenciação, mas saber distinguir as idades intermediárias sempre foi um problema.

Uma vez minha mãe disse uma coisa interessante. Que quando somos criança sabe-se distinguir facilmente quem é mais velho de quem é mais novo que a gente. Podemos estar numa festa repleta de crianças que a gente consegue separar os pequenininhos das crianças mais velhas. Depois que ficamos velhos parece que as crianças todas são jogadas dentro do mesmo balaio. Pode ter 10 meses ou 10 anos que iremos tratar sempre da mesma forma, isto é, apertando a bochecha e falando "Coisinha linda do titio!".

- Que acon... com o "au-au"? - a garota voltou a perguntar.

Mesmo não sendo muito fã de criancinhas, tenho que convir que elas conseguem ser bem engraçadinhas às vezes. Pelo jeito que já ensaiava as frases, ela devia ter seus dois anos, não sei. Talvez mais, aliás, com certeza mais. Com dois anos as crianças ainda devem estar na chupeta e sujando fraudas, falar deve ser uma coisa que só aprendem bem depois. Na escola elas só entram com uns cinco anos, certo? Se começassem a falar com os dois anos, enlouqueceriam a família por três anos. "Eu quero isso, quero aquilo. Não gostei disso. Não quero cenoura, cadê o chocolate?", o dia inteiro.

- "Au-au" - a menina interrompeu meus pensamentos.

- O "au-au"? - perguntei bobamente.

- Sim, o "au-au" do titio - confirmou a mãe, vendo minha dificuldade em responder.

Ah sim, como poderia me esquecer, para a garota eu era o titio. E olhe que eu já fui muita coisa, mas tio é uma coisa que ainda não consegui. Para a menina, eu era um titio como tantos outros, a única coisa que eu tinha que chamava atenção da garota era o "au-au".

"Au-au" não era bem o nome dele, mas taí uma denominação não estava muito longe do que ele representava. O "au-au" era o Quincas, o caçula de quatro patas da casa. Dentre a dezena de apelidos que ele já ganhou em sua existência, "au-au" ele ainda não conhecia. Só podia ter vindo da criança da vizinha, que não deve tê-lo visto muitas vezes, mas com certeza o ouviu muitas tantas latindo aqui em casa.

- Poxa vida - abri o jogo -, é que o "au-au" não está mais com a gente...

- Mas por quê? - estranhou a vizinha.

- Sabe como é, ele não se adaptou. Um cachorro sozinho no apartamento, a gente ficava um tempão fora de casa...

- Que pena...

- Nem fale - desabafei no momento que a viagem chegava ao fim..

- É que quando a gente se acostuma é difícil, né?

A porta se abriu e nos separamos, eu para o terminal pegar o ônibus, ela carregando a filha até a garagem. Não precisa dizer que a lembrança do Quincas ficou martelando na minha cabeça o dia inteiro. Eu realmente sentia muita falta daquele menino de 4 patas, mas cachorro em apartamento era uma coisa inviável, estava certo de que fizemos o melhor para ambos.

- Alô, é do Pet Shop?

Mas para tudo na vida, sempre há uma última saída, uma forma de conciliar as coisas, uma maneira deixar tudo no lugar. Pode até dar um pouco mais de trabalho, mas para quem quer chegar a uma solução nada é impossível.

- Eu já comprei um cãozinho de vocês e estaria interessado agora em comprar uma criança.

- Uma criança?

- É sim, pode ser um menino desses de 2 patas...

12 de abril de 2007

O pior é que o número de patas importa sim! Muito bom o texto, gostoso de se ler!!!

Por: Patricia Martins | junho 24, 2005 01:50 PM

¨¨¨

esse eu não tenho os méritos da criação, a filha da vizinha tocou na ferida das saudades do Quincas. O única coisa que não fiz foi ligar para o pet shop... iam pensar que sou louco e destesto quando descobrem a verdade.

Por: andré sala | junho 25, 2005 01:16 AM

¨¨¨

Eu gosto de crianças. Com batatas e molho bolonhesa, por favor.

Por: Matias | junho 25, 2005 01:37 PM

¨¨¨

singelo isso...

(alguém, por favor, chame a polícia!)

Por: andré sala | junho 26, 2005 01:02 AM

¨¨¨

Adorei o texto.
Bem escrito, divertido, e para pessoas que como eu que não podem ver um ser de 4 patas latindo (por favor, eu estou falando de cachorros aqui -rs) melhor ainda.

Agora sobre crianças...

Por: Ju | junho 27, 2005 06:32 PM

¨¨¨

gostar de cachorros latindo é o primeiro passo para gostar de crianças latindo. Porém, assim como eu, você ainda está apenas no primeiro estágio.
Fico feliz que tenha gostado (refiro-me ao texto agora).
Um abraço!

Por: andré sala | junho 30, 2005 12:39 AM

¨¨¨

Muito legal o texto André... Realmente a gente se apega muito a estes bichinhos...até parecem da família...e realmente são...

Por: Loli | junho 30, 2005 08:22 AM

¨¨¨

Quando li o título deste conto, eu jurava que se tratava da continuação de "Refeições Baratas".

Por: Daniel | julho 8, 2005 09:40 PM

¨¨¨

Soh uma observação:Se as crianças pequenas vem sujas de sangue como você diferencia as pré adolescentes no começo das 'regras'?

pergunta idiota naum!

Outra observação!Eu tenho um canil de 6 patas aqui em casa e uma criança que logo vai aprender a dizer au au.

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www.uniblog.com.br/surto

Por: Camila | outubro 12, 2005 09:24 PM

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