A idéia surgiu num domingo, desses que não têm futebol na televisão. É só nessas horas que grande parte dos homens começa a procurar o espelho, ver os estragos do tempo, exercitar a vaidade. As unhas dos pés, por exemplo, como elas crescem!
Talvez por isso ele estivesse com tantas meias furadas.
Tirando a camisa de frente pro espelho, percebeu que estava precisando de um regime de engorda, tipo gado confinado. Melhor acender um cigarro. Mas essa ilusão de engordar ele não tinha mais. O que ingeria nas refeições nunca se refletia em peso. Igualzinho sua conta corrente. O dinheiro que caía não dava nem pro alívio. Poxa vida, melhor acender outro cigarro.
Botou a camisa se despedindo do espelho. Na próxima semana deve passar um jogo na televisão e ele não teria mais que perder tempo com reflexões idiotas. De tênis calçado, foi até a panificadora ao lado de casa, mas, em vez de sair de lá com pães, uma carteira de cigarros foi o que ele trouxe. A outra já estava no fim, ele não tinha outra escolha. Só depois que chegou em casa é que percebeu o que tinha acabado de fazer, trocou o alimento pelo cigarro, como queria engordar desse jeito?
É de ficar chocado, pode acreditar, sair atrás de comida e voltar com cigarros. Aquilo não poderia ficar assim, devia ser um sinal ou algo do gênero. Rapidamente ele se sentou na cadeira, ligou o computador e só saiu de lá quando terminou de escrever, escreveu um livro. Mas não era qualquer livro, aquele iria abalar as estruturas.
- “O fim das dietas: emagreça fumando”, é esse o seu livro? - perguntaram na editora.
- Esse aí, “O fim das dietas: emagreça fumando”. O senhor leu? O que achou?
A resposta não foi positiva, não vou mentir para vocês, mas essa foi apenas na primeira tentativa. Não que as outras tivessem sido muito diferentes disso, na verdade todos acharam uma grande brincadeira de mau gosto. Onde já se viu um livro que propunha o vício do fumo como solução para os problemas de peso? As editoras repudiaram categoricamente, jamais publicariam uma coisa dessas.
Contudo, porém, sabe-se lá como, um dia desses uma cópia do livro caiu nas mãos de um desses altos funcionários da indústria do cigarro.
Preciso dizer mais alguma coisa? O livro não só foi publicado como o autor ganhou uma boa bolada logo de entrada. A publicidade também foi algo assombroso. Era só ligar a TV que lá estava o livro sendo comentado. O autor defendia suas idéias com unhas e dentes. Quando as mulheres perguntavam se o cheiro de cigarro não incomodaria os homens, por exemplo, ele dizia que no máximo causaria um desconforto, mas o que incomoda mesmo são gorduras e banhas. A platéia silenciava na hora.
Em pouco tempo suas teorias sobre emagrecer fumando ganharam as graças do povo, fumar passou a ser bem visto como uma forma de controlar o peso e até, pasmem, um benefício à saúde. De certa forma até que sim, pois se ajudava a emagrecer também evitava os malefícios da obesidade. Além disso, seria uma boa forma de promover encontros entre mulheres e homens bem sucedidos. Ele citava o exemplo de uma mulher que conheceu seu marido graças a uma consulta médica.
-É grave, doutor
- Se é grave? Um pouco - silêncio -, mas nada comparado ao que eu estou sentindo.
- Mas o que é, doutor?
-Você está com enfisema pulmonar, mas sou eu quem está morrendo de amor! — acabava o comercial com um beijo cinematográfico.
A propaganda até que era boa, especialmente quando o médico acendia o cigarro da moça usando um isqueiro em forma de estetoscópio, mas na realidade o comercial nem chegou a ir pro ar. A ciência já tinha bolado uma forma muito mais eficiente de emagrecimento.
Evoluída a partir das operações de redução de estômago, a solução definitiva para os problemas de peso e obesidade seguia o mesmo princípio. A diferença é que agora o estômago não era mais fatiado e diminuído, na verdade ele era retirado por inteiro e substituído por uma embalagem vazia de Tic Tac.
Foi o fim dessa história de fumar para emagrecer, ainda bem. As pessoas não precisavam mais desse artifício, a medicina tinha resolvido o problema. Por outro lado, isso não significou o fim da saga do fumo e seus adeptos, pois enquanto houver uma conversa depois do almoço, uma espera de 5 minutinhos ou um cafezinho na repartição, sempre haverá um fumante erguendo sua bandeira e acendendo seu cigarro.
12 de abril de 2007

