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Comemorações do Dia de Finados

— Rápido, vamos logo com isso! – disse puxando o garoto pelo braço – Seu Isidoro, o senhor não vem?

— Espere um pouco, estou colocando o paletó.

— Colocando? Poxa, não dá pra ser mais rápido?

— Prontinho, prontinho – disse, saindo do quarto e estufando o peito – Elegante, eu sei, pode dizer...

Seu Isidoro tinha colocado o paletó azul marinho, como sempre fazia todos os anos. Aposto que também iria contar a história do paletó, que foi presente de sei lá que tia e que trouxe de sei lá qual lugar. Ele adorava repetir essa história cada vez que vestia o traje.

— Não sei se eu já te contei, mas esse foi um presente da minha tia Cotovina, que trouxe o paletó lá da Catalunha!

— Sei, sei... Tia Cotovina da Catalunha... agora que terminou, podemos ir?

Os três enfim estavam prontos. Iam repetir a tradicional cerimônia de 2 de novembro. Como toda família que se preza, os Souza Passos também iriam homenagear seus antepassados, deixando uma lembrança e fazendo umas orações. Sendo assim, seu Isidoro, dona Salete e o pequeno Basílio não podiam faltar. Para isso, se produziram à altura, com direito a trajes escuros e cabelos lambidos. Eles não podiam fazer feio frente ao resto da família, embora os parentes nunca tivessem reparado muito neles.

Andando calmamente para não amassar os trajes, eles chegaram à entrada do cemitério abarrotado de gente. Mesmo com toda dificuldade em transitar naquela confusão, no fundo eles estavam se divertindo muito. Os cemitérios se tornam um ambiente bem vivo nessa época do ano. Sem qualquer indicação, eles sabiam como chegar ao lugar certo. Quando se aproximaram, notaram que quase todos estavam lá.

O seu Isidoro ficou animado em vê-los depois de tanto tempo. Dona Salete ficou impressionada como todos estavam mudados, parece até que o tempo voa. Só o pequeno Basílio estava indiferente, pois tinha ido para tantos Dias de Finados que nem se surpreendia mais. Vendo a família em silêncio ao redor do espaço dos Souza Passos, os três conversavam discretamente.

— É impressão minha ou a Lucia está mais cheinha dessa vez? – disparou dona Salete.

— O quê?

— Engordando, você sabe, ela está ficando cada vez maior.

— Pelo amor de Deus... – Isidoro reprovou o tom fuxiqueiro da conversa.

— Calma, só estou comentando.

— Numa dessas ela tá grávida – Basílio embarcou na especulação.

— De novo?

— Se isso for verdade, você ganha mais um sobrinho, Basílio.

— Legal!

— Legal, é? E a conta bancária do seu irmão, onde é que fica?

— Dona Salete, dona Salete, sempre procurando o lado trágico das coisas...

— Isso porque não é com você. Mas também ninguém mandou o Antônio ficar aí, fazendo filho ao atacado.

— Esse meu irmão caçula não tem jeito mesmo...

As orações pareciam ter cessado no túmulo dos Souza Passos, aos poucos os familiares se preparavam para ir embora. Com cumprimentos sutis, a parentada se despediu e abandonou o cemitério movimentado. Os três ainda permaneceram lá um tempo, curtindo as flores novas.

— Cada ano parece que ficam menos tempo – disse Salete desgostosa.

— Pelo menos vieram.

— Você tá feliz porque sempre é o mais festejado, olha só quantas flores você ganhou, Basílio!

Seu Isidoro estava certo, o túmulo de Basílio era sempre o mais homenageado. Eram tantas flores que até tampavam a foto do menino que foi atropelado quando corria atrás da bola de futebol. Dona Salete também tinha razão de estar chateada, suas irmãs não vieram visitá-la novamente. Qualquer hora vai descobrir que elas morreram há algumas décadas. Três para ser mais exato.

— Estão vendo aqui? – dizia seu Isidoro mostrando a foto colada na lápide. – Esse sou eu alguns anos mais moço vestindo esse paletó. Não sei se já contei, mas ele foi um presente da tia Etelvina, que comprou na sua viagem pela Sicília.

— Sicília?

— Sicília.

12 de abril de 2007

Af. Por essas e outras eu não tenho medo de fantasma... são muito atrapalhados.

Por: Alessandro Martins | junho 1, 2005 01:50 PM

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