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      <title>O desejo de...</title>
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      <description></description>
      <language>pt</language>
      <copyright>Copyright 2007</copyright>
      <lastBuildDate>Fri, 23 Feb 2007 10:51:24 -0300</lastBuildDate>
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            <item>
         <title>Fora dos holofotes</title>
         <description><![CDATA[<b>Fernanda Lizardo</b><br><br>

<br>Hoje eu quero sair.<br>

<br>Quero estar na rua às três da manhã, cheia de álcool nas ventas e sem noção de espaço e tempo; como se ainda tivesse 15 anos e fosse capaz de abraçar o mundo. Quero estar em quartos estranhos, em camas alheias, em corpos de gente que nunca vi.<br>

<br>Hoje eu quero ser anônima, poder passar nas ruas sem ser notada, sem que apontem os dedos e digam meu nome bem alto. Quero não precisar responder a perguntas sobre minha vida pessoal, sobre meu passado, sobre meu trabalho, sobre meu sexo.<br>

<br>Hoje quero fazer bobagem, falar bobagem, ser bobagem. Quero me enfiar numa turma que desconheço, me passar por íntima e depois sumir - e não cumprir a promessa do "eu te ligo".<br>

<br>Hoje quero ir ao cinema sozinha, sem precisar explicar o porquê de estar só. Quero assistir a um filme bem ruim e comer pipoca fria. Quero rir de besteira e, de repente, flertar com um rapaz ou moça que também esteja sem companhia.<br>

<br>Hoje quero ser eu mesma. E quero ser outra. Quero ter opções. Quero não dar satisfações. Quero esquecer o depois. E o antes também. E nem mesmo pensar no durante - só agir.<br>

<br>Hoje eu quero sair.<br>

<br>Hoje eu quero sair de mim.<br>

<br><strong>Fernanda Lizardo</strong> estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "<a href="http://www.cooper.blig.com.br">Cooper, por Fernanda Lizardo</a>".]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2007/02/fora_dos_holofo.php</link>
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         <pubDate>Fri, 23 Feb 2007 10:51:24 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Adquira já sua personalidade!</title>
         <description><![CDATA[<b>Fernanda Lizardo</b><br><br>
<br><em><blockquote>As pessoas tendem a aceitar descrições vagas e genéricas de personalidade como se fossem delas.</blockquote></em><br>

<br>Não fui eu quem disse isso. Essa é uma afirmação do parapsicólogo americano Bertram Forer. Tal frase se encaixaria muito bem no ato de desvendar charlatanismos de videntes ou para fazer aqueles testes de revista se tornarem motivo de chacota, porém, tem um peso muito maior do que isso...<br>

<br>De repente me dou conta de que, por várias vezes, me meti em conflitos por causa de afirmações que seriam para ninguém - mas que de repente foram chupadas no ar e resgatadas por algum incauto que se enxergava na característica sugerida.<br>

<br>E aí resolvi fazer um teste...<br>

<br>Certa vez, escrevi uma frase num papel. Dizia: "Você é uma pessoa forte, porém, às vezes tem seus momentos de fraqueza. Apesar de tudo, luta por seus ideais. E não gosta de ser passada para trás". Larguei a folhinha sobre um banco de praça e observei até que um curioso se dispusesse a abrir aquele papel tão bem dobrado e cheiroso. Não demorou a acontecer. Era uma mulher. Jovem. Ela abriu, leu, sorriu e guardou o papel consigo.<br>

<br>Repeti a experiência. Moças, velhos, homens, meninotas... Todos aqueles que liam minhas palavras sorriam; era o sinal de que tinham se encontrado naquela frase. Sentiam-se desvendados.<br> 

<br>O que estava escrito ali, na verdade, serviria a qualquer um. Era a expressão do coletivo, do sentimento de um grupo. Era a coisificação de gente. Era gente reduzida a uma frase.<br>

<br>Depois disso tudo, passei a observar mais a reação das pessoas na hora de soltar palavras por aí. Posso dizer qualquer coisa: <em>linda</em>, <em>puta</em>, <em>esperto</em>, <em>fraco</em>, <em>burra</em>, <em>ingênuo</em>, <em>perspicaz</em>... Todas as palavras sempre terão um dono. Todas as características terão um ser à espera, pronto para fisgá-las!<br>

<br>Seres disponíveis à osmose que lhes trará a tal da personalidade.<br>

<br><strong>Fernanda Lizardo</strong> estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "<a href="http://www.cooper.blig.com.br">Cooper, por Fernanda Lizardo</a>" - que deu origem ao livro O sexto sexo - e a uma possível coletânea com os melhores textos de Cooper (no prelo).]]></description>
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         <pubDate>Thu, 11 Jan 2007 11:07:36 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Pequena morte</title>
         <description><![CDATA[<p><strong>Carlos Heitor Barros</strong></p>

<p>Mandei ela sair de trás da mesa e despojar-se de seu uniforme. Usei de todos os argumentos para convecê-la, não tive medo de ser lúbrico, ousado ou doce. Não lembro das exatas palavras, pois o tempo nos muda tanto que nossas lembranças mais precisas acabam relidas por alguém que praticamente não as entende. O que era o temor quando já domado? O que era a ansiedade quando já saciada? O que era o verde quando amadurecido? O que era grande quando hoje ridículo? Minhas palavras se perderam para que eu pudesse me achar. Deixei quem eu era naquele encontro com a morte.  </p>

<p>Convivíamos. Seu nome ecoava em meu sono, seu cheiro nos ambientes em que eu freqüentava, sua lembrança aparecia nas minhas letras. Seu peso na minha postura. O medo não era dela, mas da iminência da dor, isso eu sabia. Mesmo assim, demorei a olhá-la nos olhos. Demorei para descobrir como lidar com ela. Comigo. Quem eu queria ser diante do fim. Em diante. </p>

<p>Para seduzir a morte é preciso contar com a verdade. Porque ela olha dentro de você. Através. Ela te sabe. A cada mentira morres um pouco. E ela nem faz nada, só te olha, às vezes com pena, às vezes com carinho, às vezes com ódio. Mas só te olha. Não faz nada. Você é que se sente morrer.  </p>

<p>A verdade, no entanto, acaba com o passar do tempo. </p>

<p>Aconselho pureza como escudo. Não inocência que não depende de nada. Pureza, por escolha, por convicção, por vontade.</p>

<p>Vontade que também é tua arma. Vontade que defende e contra-golpeia. Vontade que começa o embate. Que te leva ao duelo. Que te monta na sela, que te empunha a lâmina. Vontade que é o desejo forjado. Aço, asa, assunto.  </p>

<p>Imaginação, a  outra asa. Pois só ela aliada a vontade nos mantém em vôo. Só ela nos descreve o que vemos lá de cima. Só o futuro vence a morte. </p>

<p>Dispa-se de tudo isso então. Sempre fica em você o que você é. Mas dispa-se das armas junto com a idéia da luta. É tão ridiculo desafiar a morte quanto não fazê-lo. Desafio lançado, em sua melhor forma, com toda sua convicção, desista do combate. A morte não pode ser vencida. </p>

<p>A dança começa com música. Não se dança contra, dança-se com. Se a música for uma forma de felicidade o  corpo reage, ritmicamente, como se ela te moldasse ao tempo e não o contrário. Você deslizando com ela em teus braços. Você fluindo, por que o amor te faz fluido. E é mais um dos nomes da felicidade.<br />
Ninguém vence. Vive-se com. Com a mudança, com a perda, com a felicidade.<br />
 <br />
E morre-se com. Como se vive.</p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2007/01/pequena_morte.php</link>
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         <pubDate>Wed, 03 Jan 2007 17:41:10 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Notas sobre o tempo.</title>
         <description><![CDATA[<center><img alt="255407531_4064f6ec58.jpg" src="http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/255407531_4064f6ec58.jpg" width="375" height="500" /></center>
<br>
<br>

<p>Por <a href="http://www.verborragica.blogspot.com">Daniela Lima</a>.</p>

<p><em>Quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.</em><br />
</em></p>

<div align="justify">Passo os dias a desenhar relógios pelo corpo; dessa forma, tenho a impressão de que posso controlar o tempo. Os ponteiros dos meus relógios de tinta não se movem e marcam sempre a mesma hora: eu deitada na cama sem sentir dor alguma. Ao parar de pensar, pude congelar o tempo e, por conseqüência, conter as minhas dores – barricadas de tinta nas pernas, braços e pés.<br>
<br>

<p>(Ele percebeu apenas os seios; ignorou a tristeza que discretamente rói as minhas entranhas) <br />
<br><br><br></p>

<p><br />
***<br />
<br><br><br />
Somos eternos espectadores do nosso próprio passado e, com isso, nos tornamos "ausentes" do nosso presente. O passar do tempo torna as lembranças mais belas e, por isso, fazemos delas o nosso refúgio - é mais seguro agarrar-se ao que é imutável. </p>

<p>É preciso enxergar que somos também a tragédia desse minuto e aprender a deixar os "mortos" pra trás.<br />
<br><br><br />
Feliz Ano Novo!</p>

<p></p>

</div>
]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/12/notas_sobre_o_t_1.php</link>
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         <pubDate>Wed, 27 Dec 2006 18:49:07 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Bipartindo</title>
         <description><![CDATA[<br><strong>Carlhos Heitor Barros</strong><br>

<br>Querida,<br>
 
<br>Só um dia longe, eu sei. Por isso ainda não são saudades, é apenas falta... Sinto tua falta todo o tempo, ja me acostumei. Nada agressivo ou doentio, só o suficiente para pensar em mim como dois, para te ver em cada coisa que eu gostaria que visse, para sentir tua presenca em cada momento que eu gostaria de ter vivido junto contigo. <br>
 
<br>Não fui no restaurante etíope que estávamos tão curiosos para conhecer. Guardei pra uma outra viagem, pra outra vez, quem sabe podermos provar juntos. Sabe como gosto de provar as coisas com você, trocar impressões, dizer tudo com poucos olhares, concordarmos ou discordarmos numa espécie de harmonia que nem nota esses detalhes: nossas diferenças. Nossos gostos são diferentes, às vezes muito parecidos entre si, mas sabemos o quanto são, no todo, bem diferentes. Mesmo assim provar as coisas juntos é um exercicio de convívio e prazer, de cuplicidade sem igual. <br>
 
<br>Sem você nem peço sobremesa. Gosto de sobremesas divididas. Ou isso ou nem as como. Você sabe disso e me deixa chocolates num bolso da  mochila, quando vai embora, pra caso eu sinta falta de um doce...<br>
 
<br>Nem sempre poderemos vir à Europa, onde achamos tantas cozinhas diversas, tantas culturas, tantos temperos. Nem sempre poderemos ir à Ásia ou outros continentes distantes, mas São Paulo é perto e a cada dia mais se torna um lugar mais interesante de ser visitado. Cada dia comemos melhor em São Paulo, com amigos mais interessantes em volta. O gosto e a companhia. Vários restaurantes interessantes e várias pessoas a se ver... <br>

<br>Às vezes está bem perto. Às vezes penso que viajei tanto só pra ter tanto prazer ao ficar em casa. Pra ser tão feliz com o que está próximo, para acabar com a magia do intangível, com o charme do exótico. Adorei o caminho, mas tanta andança faz a hora de tirar os sapatos mais prazerosa, a hora de botar os pés para o alto, uma vitória. Uma massagem nos pés, então! Pode dobrar um homem…<br>
 
<br>Fugi do etíope mas acabei caindo em um restaurante do sul da Índia. Delicioso. Sei que vou deixá-la com a boca aguada, mas descrevo: comi samosas e uma sopinha de lentilhas... Depois curry de cogumelos bem picantes com um pão feito com coco na massa. Doce e condimentado. Salgado e aromático. <br>
 
<br>O tibetano com seu feijao nepalês único, ou talvez o indonesiano, com a miríade de pratos formando a mesa de arroz, foram mais interessantes, mas esses covardemente contavam com sua presença para tornar a experiência mais prazerosa. Dividir as sobremesas e as caminhadas noturnas após.  <br>
 
<br>Ouvir obrigado, em português perfeito, de um legítimo sherpa, conversar com ele sobre as diferenças entre o feijão brasileiro e o da sua terra natal, sobre as discussões que ele tinha a esse respeito com sua ex-namorada paulista que veio trabalhar no distrito da luz vermelha de amsterdam e, ao fazê-lo, lembrar que te prometi preparar a versão angolana do mesmo prato, que eu aprendi com uma amiga portuguesa, namorada de um muçulmano, lá na austrália, me fazem concordar com uma amiga que diz que o mundo é muito pequeno. <br>
 
<br>Mas intenso para os que o fazem intenso, eu acrecento. <br>
 
 
<br>Te amo<br>
<br>Cahe<br>
]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/12/bipartindo.php</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Thu, 07 Dec 2006 01:05:27 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Cartas.</title>
         <description><![CDATA[<br><br>
<object width="425" height="350"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/pFbxQVbsHeI"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/pFbxQVbsHeI" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"></embed></object>
<br><br>
Por <a href="http://www.verborragica.blogspot.com">Daniela Lima.</a>
<br><br><br>

Rio, 14/11/2005.<br><br><br>
<div align="justify">F,<br><br>

Consigo escutar a melodia da chuva lá fora, tão triste; mas é uma tristeza reconfortante, quase bela – como a da música que você me mandou ontem. Engraçado você ter evocado Mozart, vejo tanto dele em você: a busca de si mesmo, a sabedoria, o virtuosismo – o Fantasma* é a sua Flauta Mágica.
<br><br>
Você é realmente uma pessoa importante, das poucas que têm a obrigação de escrever para livrar o mundo dessa crescente idiotice. É uma missão generosa: oferecer parte de si ao mundo. E o mundo só tende a devolve dor, desespero e incompreensão. Talvez não estejam preparados para as suas palavras.
<br><br>
Quero você como um todo – o escritor que venero tanto e o homem que me fez amá-lo até os meandros. Os meus olhos não se cansam de esperar um milagre, você o fará? Desculpe, mas não consigo conter as palavras, estou transbordando. Sei que não tenho o direito de desejar, de amar, mas não consigo controlar. Transbordando. Quero me despir aos poucos, te mostrar que nem tudo é óbvio e raso. Acredite: as coisas vão mudar.
<br><br>
Essa tristeza reconfortante é a mesma que senti hoje pela manhã, quando passava a mão na sua pele, tentando decorar cada sensação, cada arrepio. Pensava no Miller, tentava segurar o ímpeto egoísta – <em>Meu amor por ele era tão profundo, tão completo, que toda vez que o encontrava eu me sentia renascer. (...) Eu não esperava nada, não queria nada dele. Sua mera existência já me bastava plenamente.</em><br><br>

Beijo,<br><br>

D
</div>
<br><br><br>
*Segundo Romance de Francisco Slade.]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/11/cartas.php</link>
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         <pubDate>Wed, 29 Nov 2006 21:57:18 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Rápidas rasteiras</title>
         <description><![CDATA[<p><strong>Alexandre Inagaki</strong></p>

<p>- Você não odeia essas pessoas que repetem a pergunta quando respondem?<br />
- Se eu odeio pessoas que repetem a pergunta quando respondem? É claro!</p>

<p>* * * * *</p>

<p>- Será que Deus apiedar-se-ia de minha alma se eu me regenerasse de vez?<br />
- Depois dessa mesóclise, provavelmente não.</p>

<p>* * * * *</p>

<p>- Amor, perceba: foi apenas uma foda. Com você, eu faço amor. E isso faz toda a diferença.<br />
- Diferença é o que você vai ver na sua conta bancária, depois da pensão que vou cobrar na Justiça depois do nosso divórcio!</p>

<p>* * * * *</p>

<p>Quem diria. Depois de tanto tempo, vejo que você ainda é a mulher mais linda de todo o universo. Ainda me lembro de quando éramos namoradinhos de infância e andávamos de mãos dadas, os braços balançando como se fossem pêndulos de um relógio de parede. Será que você ainda se lembra das nossas brincadeiras de esconde-esconde com a lua, e das risadas que compartilhamos quando percebemos que ela sempre nos encontraria? Quem diria. Anos se passaram, e no entanto você ainda mantém intacto o poder de mesmerizar meus sentidos. Mas agora você é casada, eu também, a vida nos separou e eu não quero pensar nos porquês. Eu sou feliz com minha esposa e meus três filhos, você também há de ser, e eu jamais terei a coragem de dizer que em meu mundo nostálgico de céu azul e lembranças edulcoradas você ainda usa marias-chiquinhas, tem aparelho nos dentes e será para sempre a mulher da minha vida.</p>

<p>* * * * *</p>

<p>- Chorei quando o Titanic começou a afundar.<br />
- Pô, não conta o final do filme.</p>

<p>* * * * *</p>

<p>- Eu sou um babaca, eu sei, nem precisa me falar.<br />
- ...<br />
- Sei lá, acho que ainda sou muito imaturo pra mergulhar de cabeça num relacionamento.<br />
- ...<br />
- E, pôxa, você merece alguém muito melhor do que eu.<br />
- ...<br />
- Eu só espero que você possa pensar em mim com carinho.<br />
- Olha Carlos, se você me prometer que vai calar a boca, enfiar esses clichês de fim de relacionamento no meio do teu cu, sair desta casa neste exato momento e nunca mais olhar para trás, talvez eu possa apenas te mandar à merda em vez de desejar que uma manada de elefantes sapateie em cima do teu saco. Porra, você consegue me deixar mais desbocada que filme brasileiro!</p>

<p>* * * * *</p>

<p>- Depois dessa, fiquei com a consciência pesada.<br />
- Nem me fale. Se você conhecer um endocrinologista para a alma, me avise.</p>

<p><b>Alexandre Inagaki</b>, 32, é jornalista, poeta bissexto, leonino, japaraguaio, air drummer e cínico cênico, não necessariamente nesta ordem. Escreve ocasionalmente no blog <a href="http://www.gardenal.org/inagaki/">Pensar Enlouquece, Pense Nisso</a>. Mora em São Paulo ao lado de seu animal de estimação, a ornitorrinca imaginária Leda Zeppelin.</p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/11/rapidas_rasteir.php</link>
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         <pubDate>Fri, 17 Nov 2006 14:16:24 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Banquete</title>
         <description><![CDATA[<b>Fernanda Lizardo</b><br><br>

<br>"Vem! Serei sua jabuticaba. Me faz explodir e depois espalhar por sua boca toda aquela massinha branca e viscosa."<br>

<br>"Que tal uma rabada?"<br>

<br>"Deixa eu dar só uma lambidinha."<br>

<br>"Seu corpo é doce, muito doce. Mas não enjoa."<br>

<br>"isso, chupa tudo!"<br>

<br>"Sorva-me como se eu fosse vinho. Fique embriagado de mim."<br>

<br>"Vai me comer ou não vai?"<br>

<br>"Está com um gosto tão estranho..."<br>

<br>"Se ela estiver fria, não dá, não encaro."<br>

<br>"Deixa eu te explicar: é mais ou menos como chupar um pirulito ou um picolé, mas não pode morder, tá?"<br>

<br>"Já dizia a sabedoria popular, querido: 'Meu passado sexual é como cozinha de restaurante... Se você conhecer, não come!'"<br>

<br>"Morde que eu gosto!"<br>

<br>"Não, eu não engulo, não."<br>

<br>"Adoro pepino, mandioca, cenoura...!"<br>

<br>"Quanto mais quente melhor."<br>

<br>"Depois é um saco, pois fico com a boca cheia de pelinhos."<br>

<br>"E se for mais apimentado, você gosta?"<br>

<br>"Depois de comer sempre me dá vontade de fumar um cigarro."<br>

<br>"Estava gostoso?"<br>

<br>(*Sentir fome é ser seduzido pela comida. Querer sexo é ser seduzido pelo corpo. A avidez da fome é similar à avidez pelo sexo. Comer é satisfazer o estômago. Trepar é satisfazer a alma. Fazer amor é quase um canibalismo. Lógico. Sexo e antropofagia são tão próximos, que ambos podem ser definidos pela mesma expressão: "comer gente".)<br>

<br><strong>Fernanda Lizardo</strong> estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "<a href="http://www.cooper.blig.com.br">Cooper, por Fernanda Lizardo</a>" - que deu origem ao livro O sexto sexo - e a uma possível coletânea com os melhores textos de Cooper (no prelo).]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/11/banquete.php</link>
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         <pubDate>Wed, 08 Nov 2006 13:24:25 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Festival.</title>
         <description><![CDATA[<img alt="mala.jpg" src="http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/mala.jpg" width="500" height="313" />
<br><br>

<strong> <a href="http://verborragica.blogspot.com">Por Daniela Lima. </a></strong>
<br>
<br>
<iframe src="http://www.castpost.com/Lib/playm1.php?filename=01 Crystal.mp3&url=http://verborragica.castpost.com/" width="250" height="40" frameborder="0" scrolling=No></iframe><br>
<br>
<br>
<div align="justify"><strong></strong>Não consigo suportar o peso da minha própria existência; não tenho mais ânimo pra resistir e me levantar – não tenho por quê. De joelhos, meu bem, vê? Estou aqui, na terceira fila, ao lado do senhor comendo pipoca. Se eu soubesse falar, berraria o seu nome e faria o cinema inteiro ouvir o meu coração explodir.
<br><br>
Nessa chuva – nesse desamor –, a sensação térmica é bem inferior à temperatura; saio do cinema com pressa, segurando as palavras e as lágrimas. Digo o endereço em voz baixa; o taxista não me escuta. Repito. Falo baixo com a esperança de que as pessoas não percebam o meu lamento constante.
<br>
<br>
Ainda não sei explicar o que senti ao vê-lo de mãos dadas com ela... Um delírio. Por um lado, achei bonito: ele sorria de um jeito que nunca vi antes – estava pleno. Dessa vez, decidi: vou embora. Nunca nos prometemos fidelidade, mas estou farta de dividir a sua atenção e – pior – o seu amor.
<br>
<br>
Sou uma mulher privilegiada. Uma mulher capaz de sentir um amor que muitos jamais irão sequer entender. Um amor que mudou os meus paradigmas; contudo, um amor que bate num peito pequeno, capaz de amar – e desejar – apenas uma pessoa. Não cabe mais ninguém aqui. Ó, que pequeneza a minha, tão diferente dele – “um homem encharcado de amor”, capaz de abraçar o mundo com apenas uma das mãos. Talvez ninguém consiga entender a sua enorme capacidade de amar – a virtude vinda do defeito. A minha limitação só me permite ter sonhos pequenos, sonhos de SINGULARIDADE.
<br>
<br>
Coloco a última peça de roupa na mala e: fim do filme; me perco na multidão. De repente, começo a te enxergar em cada homem, mulher ou criança que esbarra em mim; aquele tem o seu olhar, este tem qualquer coisa no jeito de andar... Costuro os detalhes e: você. E: nós, duas crianças, dois livros, duas músicas; um. </div>]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Wed, 25 Oct 2006 20:31:38 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>O que é que a Olívia Palito tem?</title>
         <description><![CDATA[<b>Fernanda Lizardo</b><br><br>

<br>Quando criança, nunca entendi bem a intenção das historinhas do marinheiro <em>Popeye</em>. Enquanto todos os heróis eram belos, justos e carregavam consigo todo o poder do <em>american way of life</em>, <em>Popeye</em> era um marinheiro caolho, que fumava cachimbo (tão politicamente incorreto) e era apaixonado por uma magrela meio estúpida.<br>

<br>Eu também não entendia bem por quê ele aceitava levar tanto cacete do Brutus até resolver comer o espinafre, que o fazia um homem forte e másculo (aliás, o Popeye era baixinho, mas tinha uns bíceps enormes; e o Brutus só era grande por excesso de gordura. Se eles fossem personagens contemporâneos, um <em>personal trainer</em> e um cardiologista saberiam bem quem levaria a melhor na história).<br>

<br>Quando o tempo passou, preferi pensar que <em>Elzie Crisler Segar</em> só criou os personagens por causa do conchavo com algum distribuidor de espinafre (anos luz antes de a hortaliça exterminar pessoas por Utah, Idaho e outras bandas norte-americanas, obviamente).<br>

<br>Ainda assim, tem algo que me incomoda: o quê, afinal, ambos viram na famigerada Olívia Palito? Ela não tinha bunda, peito e tampouco era astuta e inteligente. Seria a moça uma precursora das atuais modelos, já despertando os instintos mais primitivos naqueles que se amarram numa <em>Twiggy</em>? O quê raios fazia aqueles homens se engalfinharem pela moça esquisita, nariguda, magrela e abobalhada? Que há gosto para tudo, sabemos, mas.. Vai entender!<br>

<br>Acho que, no fim, o que havia naquela latinha de espinafre do <em>Popeye</em> não era espinafre, nada! Era uma ervinha bem mais intensa, pois só isso explica uma paixão tão frenética pela Olivia Palito e uma coragem tão repentina na hora de enfrentar o Brutus! Mas... Ele não deveria fumar, em vez comer? [e as crianças, ora bolas, vamos dar o exemplo! Um cachimbo é perdoável, mas um enroladinho no papel de seda pega pesado, não?]<br>

<br>Não vou discutir o papel psicológico do Brutus na história, afinal, o que me interessa mesmo é: qual era a origem do <em>sex appeal</em> da Olívia? Será que ela era a única mulher disponível no mundo dos quadrinhos? Será que só depois de puxar um até a última ponta ela ficava encarável? Será que havia viagra naquele espinafre? Será que o Brutus estava há tempos sem comer ninguém?<br>

<br>Nenhuma das hipóteses acima parece uma resposta válida. Acho que, depois de pensar, pensar, pensar, só resta mesmo uma alternativa: dizem que ela pagava um boquete inesquecível.<br>

<br><strong>Fernanda Lizardo</strong> estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "<a href="http://www.cooper.blig.com.br">Cooper, por Fernanda Lizardo</a>" - que deu origem ao livro O sexto sexo - e a uma possível coletânea com os melhores textos de Cooper (no prelo).]]></description>
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         <pubDate>Tue, 10 Oct 2006 22:33:06 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Desimpedimento</title>
         <description><![CDATA[<br>Ninguém entende o que eu escrevo. Todos tentam me ver, eu acho, e só os muito distantes ou os muito próximos conseguem. No meio, ninguém. Acho justo. Normalmente eu sou quem menos entende onde quero chegar. Ou se entendo não entendo o porquê. E muitas vezes mudo de idéia no meio do caminho, parando em outro lugar completamente diferente e me dando por satisfeito. Aprendi a apreciar a viagem, isso quase sempre me basta. <br>

 

<br>Minha mitologia particular contém passagens como aquela em que, da barriga da máquina voadora blindada, eu vi dragões mecânicos se aproximarem para com seus sopros de vapor e olhos luminosos, numa dança complexa e arrítmica, nos livrarem do gelo para que pudéssemos atravessar meio mundo e voltar para casa. Aqueles monstros tão terríveis se mostraram tão dóceis que minha impressão foi de que a música onírica que só eu escutava tivesse hipnotizado também a eles e não só a mim... Depois, sobrevoei um mar negro, com águas vivas e caravelas fosforescentes tão gigantescas que boiavam na superfície com milhares de pessoas vivendo em seus dorsos. Foi nessa viagem que eu escutei um dos melhores discos de pop que já foram feitos. O sorriso que me acompanhou durante toda a audição me volta agora com a lembrança, junto com ele a gratidão à pessoa que me mimou com músicas e imagens tão belas colocadas no meu bolso quando parti, para que eu pudesse aproveitar mesmo longe. Corações muito grandes quase não têm fronteiras. <br>

 

 

<br>Às vezes existem dezoito minutos de felicidade em uma canção. É raro, mas acontece. Quando se está lá e se tem essa felicidade só nos resta saber que uma vez em nós, qualquer fagulha, qualquer lembrança, pode ser um caminho expresso para o deleite. Não está acontecendo, você está apenas sentindo... <br>

 

<br>Eu subi as montanhas mais geladas e velejei os mares mais quentes. Lutei com tormentas por dias a fio, mas também tomei banhos de chuva tais quais os da minha infância. Enfrentei o medo de cair caindo. Pilotei aviões, enforquei pessoas... <br>

 

<br>Cantarolo as músicas que gosto enquanto ando com minha bicicleta na orla da cidade em que eu vivo. Restaurantes franceses, puteiros vagabundos, inferninhos roqueiros ou botecos pé-sujo: onde estão os meus, eu também estou. Pra ficar só eu fico em casa, em ótima companhia. Ou debaixo de muito esporro. Sozinho no meio de tantos: "When I got the music/ I got a place to go". <br>

 

<br>Construo então um ninho. Lugar que reflita a arquitetura interna do meu coração, com suas idiossincrasias, seus extremos, suas inconstâncias e peculiaridades. Um lugar onde caibam e vivam os que amo. Um templo sem religião. Um templo de adoração a tudo o que eu adoro. Celebrações diárias em sânscrito e latim, em horas variadas, sem sacrifícios, mas com expressões de carinho variadas desde já pré-aprovadas. <br>

 

<br>Meu velho cego preferido, a quem eu chamo de mestre, mas que nunca me aceitou como discípulo, diz que não deveriam existir leituras obrigatórias, pois para ele a literatura é uma espécie de felicidade e leitura obrigatória seria como felicidade obrigatória... Sinto que a música também é uma espécie de felicidade. E eu cercado por elas não vejo saída ou escapatória possível: sou feliz quase que por obrigação. Não vejo escolha quando olho pra dentro. <br>

<br><strong>Carlos Heitor C. M. Barros</strong> fundou em 2004 o bloco carnavalesco suvacos de shiva devido a sua recém conversão ao hinduismo materialista-especulativo na sua vertente mais sensorial, matriarcal e safada.
provocado pelos amigos em suas convicções peculiarmente abstêmias, fundou sua própria dissidência, o suvaco de chivas onde as ideologias diametralmente opostas às suas fazem a festa...]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/10/desimpedimento.php</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Wed, 04 Oct 2006 16:28:21 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title></title>
         <description><![CDATA[<div><embed src="http://widget-5f.slide.com/widgets/slideticker.swf" quality="high" scale="noscale" salign="l" wmode="transparent" flashvars="site=widget-5f.slide.com&channel=72057594043533919&cy=ms&il=1" width="475" height="375" name="flashticker" align="middle"/></div><div style="width:475;text-align:left"><a style="vertical-align:middle" </a> <br>
<br>
<strong><span style="font-size:130%;">Eu serei você, por <a href="http://www.verborragica.com">Daniela Lima</a>. </span></strong><br>
<br>
<br>

<div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="justify">Primeiro o negro; depois o vermelho. Ela acha que sinto prazer com isso, mas não. É outra coisa: vazio. Preciso recolher o que sobrou – tanta tinta. A ordem é de fato importante, inclusive pra ela, se misturo as cores o que era mulher vira borrão. Esse já é o terceiro quadro que deixo incompleto, se os juntasse teria uma obra – um inteiro.
<br>
<br>

<em>Não adianta dizer a ele o que penso, porque, talvez, seja muito tarde – depois o negro. Tarde pra mim, é bom salientar. Sempre em tempos diferentes: uma renda feita de cedo e tarde. Sempre o retardo de sentimento. O que era esperança virou aceitação e essa lágrima não vai cair:</em></div><div align="justify"><em><br>
<br>
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,<br>
<br>

</em>Meus olhos sofrem de exaustão precoce, enquanto meu coração bate sempre devagar, às vezes penso que parou – primeiro o negro. Pintar pessoas é mais simples do que pintar emoções; e as tintas mancham menos do que as palavras. Vou deixando pequenos pedaços de mim nas telas, sei que um dia não vai sobrar nada – depois o vermelho. E está próximo.
<br>
<br>
Ninguém me perguntou – e deveriam ter me perguntado – o que significava o último quadro. Será que entenderam? Engraçado é que, olhando pra ele na parede, me parece tão óbvio. Bom, se entenderam é pior: prefiro me imaginar incompreendido; não ignorado – primeiro o vermelho; depois o negro.
<br>
<br>
Acabou, ela não vem. O tempo.
<br>
<br>
***
<br>
<br>
<em>O pássaro que voa a vida inteira; agora se entristece com a ausência de um pouso. Mas restam as imagens captadas durante o vôo. </em></div><em></em>

]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Mon, 25 Sep 2006 22:51:57 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Eu não acredito em putas</title>
         <description><![CDATA[<b>Fernanda Lizardo</b><br><br>
<br>Putas são um mito. Prostitutas, mulheres da vida, meretrizes, a mãe do outro... Todas são mentira. Não existem de fato. São histórias da carochinha para adultos, lendas urbanas, mentirinhas aumentadas, contos de fadas - ou de fodas, dependendo do ponto de vista.<br>

<br>Eu já entrei em muitas casas de baixo meretrício e já conversei com as moças que, aparentemente, deveriam vir prostradas em bandejas de ouro, com uma maçã na boca. Mas não eram essa oferenda toda. Eram só... Moças.<br>

<br>Já fui em prostíbulos só para ver damas sofridas, as tais que vendiam o corpo para garantir um sustento mambembe. Queria achar também as mulheres ousadas, que davam o que davam porque queriam - e ainda faziam disso um lucro. Queria as meninas calejadas, sempre à sombra de cafetões malucos. Queria ver uma puta de filme, de livro, de música, de relatos de maridos casados e infiéis.<br>

<br>Cacei Geni. Cacei Satine. Cacei Rita. Cacei Bruna. Cacei Eva. Cacei Rosa. Cacei Maria Madalena. Nada. Não veio nada disso. Nem daquilo. Nem daquilo outro. Juro que não criei expectativa demais.<br>

<br>E eu só queria uma puta. Uma só, daquelas das quais sempre ouvimos falar... Moças de cabarés; cortesãs suaves dos tempos antigos; garotas estapeadas que guardam pequenos cortes nas fuças por causa dos tabefes constantes; divas que sempre pegam os melhores clientes; mães de família que aceitam velhos suados para levar o leite às crianças; aspirantes a modelos que não deram certo e resolveram então, dar, literalmente, errado; máquinas de sexo que não beijam na boca.<br>

<br>Não tinha.<br>

<br>Achei só mulheres.
<br>Mulheres que se apaixonam como todas as outras.
<br>Que choram.
<br>Riem.
<br>Praguejam.
<br>Dançam.
<br>Conversam.
<br>Seduzem.
<br>Dormem.
<br>Pagam a conta de luz.
<br>Querem fazer o trabalho da melhor forma possível.
<br>Ficam de saco cheio às vezes.
<br>Reclamam do salário quando o chefe do clube é tão muquirana quanto qualquer empresa que emprega com carteira assinada.
<br>Mulheres sem magia.
<br>Que não são dignas de serem recebidas com pedradas. Nem com aplausos em demasia.
<br>E que vivem de dieta.<br>

<br>Vida de puta é só vida de gente.
<br>Gente comum.<br>

<br>Putas são mito. Não me ofereçam as mulheres retratadas em bons filmes ou em péssimos livros. Não me ofereçam as putas fantasiadas de histórias tristes ou de prazer intenso. Não me ofereçam as putas das letras de música.<br>

<br>Eu já sei de toda a verdade:<br>

<br>Putas não existem.<br><br>

<br><strong>Fernanda Lizardo</strong> estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "<a href="http://www.cooper.blig.com.br">Cooper, por Fernanda Lizardo</a>" - que deu origem ao livro O sexto sexo - e a uma possível coletânea com os melhores textos de Cooper (no prelo).]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/2006/09/eu_nao_acredito.php</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Wed, 13 Sep 2006 00:04:17 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Noção de nada quando envolto nos teus braços.</title>
         <description><![CDATA[<br>Casar enquanto ainda se vai a shows de punk-rock não é pra qualquer um. Levando a esposa então... bem mais raro.<br>
 
<br>Casar... Perdi o medo da palavra. Quando era mais jovem não admitiria jamais. Quando era mais jovem não sabia o quão subversivo eu ia me tornar. A experiência transforma o confronto aberto numa luta quase secreta, um embate interno. Não me imponho ao mundo. Cada dia mais, rejeito suas imposições, com a discrição de um cavalheiro. Nada de revolta, de rebeldia. O poder verdadeiro é inefável, não pode ser medido ou definido, mas existe, está lá, e quase se confunde com a felicidade. <br>
 
<br>Quando me perguntavam antes com quem eu queria casar, quais as características necessárias, eu dizia meia dúzia de improbabilidades bem radicais e incoerentes e deixava quieto. Improbabilidades radicais e incoerentes que evidentemente descreviam perfeitamente meus anseios e, por analogia ou complementação, me descreveriam com precisão. Que fique bem claro. <br>
 
<br>Os meninos riam, reconhecendo uma utopia, as meninas riam com ironia tensa, porque a outra opção era o confronto. Meninos têm que fugir do casamento a qualquer custo, meninas têm que procurá-lo sempre. Meninos chegam a um ponto em que, por amor, não mais conseguem resistir e, contra sua vontade, casam-se. Meninas buscam com afinco e perseverança algo que se aproxime do seu ideal, podem errar, podem tentar quantas vezes forem necessárias, mas não podem descansar, não podem ter outro fim que não a parceria de longo prazo e a reprodução. <br>
 
<br>Uma das poucas vantagens da maturidade é a diluição dos estereótipos. Dos que habitam a própria cabeça...<br>
 
<br>Um dia minhas improbabilidades não assustaram, não provocaram risos nervosos nem reações agressivas. 
Nenhum sinal de rejeição, porque não estava sendo rejeitada. Ela estava, ao ouvir a verdade, sendo acolhida. Num ninho difícil talvez, incomum certamente, mas era profundamente bem-vinda. Só precisava se reconhecer em casa. Para começarmos a construí-la... <br>
 
<br>Curry em vez de feijão, sauna no lugar do banheiro de empregada, Rio de Janeiro combinando com hardcore e não samba.<br>
 
<br>Às vezes quando você faz a encomenda esquece algumas coisas, nem imagina outras, não se dá ao direito de pedir demais. Eu exagerei nos pedidos e ainda assim ganhei mais do que o esperado. Do que o merecido então, nem se fala... <br>
<br>Esposa no espanhol vem de esposas, algemas. Como se vê, algo não necessariamente ruim, dependendo do uso que se dá... <br>
 
<br>To: G M<br>
<br>Subject: Ao ninho<br>
<br>"O amor é quando a gente mora um no outro." <br>
<br>Mario Quintana <br>

<br><strong>Carlos Heitor C. M. Barros</strong> fundou em 2004 o bloco carnavalesco suvacos de shiva devido a sua recém conversão ao hinduismo materialista-especulativo na sua vertente mais sensorial, matriarcal e safada.
provocado pelos amigos em suas convicções peculiarmente abstêmias, fundou sua própria dissidência, o suvaco de chivas onde as ideologias diametralmente opostas às suas fazem a festa...]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Wed, 06 Sep 2006 18:40:00 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Alienação.</title>
         <description><![CDATA[<center><img alt="trem.jpg" src="http://www.cracatoa.com.br/2005/desejo/archives/trem.jpg" width="500" height="242" />
</center>
<br>
<br>
<br>
<strong>Por <a href="http://www.verborragica.blogspot.com">Daniela Lima</a>.</strong>
<div align="justify">
<br>
<br>
<i>Eles se abraçavam, e ela murmurava: – Vou despi-las para você, darei banho nelas e as levarei até você... – Queria que ambos se transformassem em criaturas hermafroditas e que os corpos de outras mulheres se transformassem para eles num brinquedo comum.</i>

<br><br><br>

A loucura é, antes de tudo, um problema de visão – olhos que só conseguem enxergar um único ponto. Foi assim que cheguei aqui: meus olhos só me mostravam esse trem. Agora, embarcada, consigo desenvolver um ciclo de pensamentos onde o trem é o centro. Nesse momento, por exemplo, penso na paisagem que mal consigo identificar – o trem é muito rápido. Sinto medo ao imaginar que, nesta viagem, os fatos estão sempre se repetindo – existem poucas possibilidades de combinação entre os azuis das cortinas do trem.
<br>
<br>
Sinto que perdi alguma coisa ao entrar aqui; mas não me lembro o quê.
<br>
<br>

– Amo duas pessoas, é isso.<br>
– Desculpa, mas não consigo entender essa possibilidade.<br>
– Você só consegue enxergar uma coisa; não sabe mudar o foco.<br>
– É verdade... O trem.<br>
– Oi?<br>
– Nada.<br>

</div>
<br>
<br>

<iframe src="http://www.castpost.com/Lib/playm1.php?filename=tindersticks - 10 - running wild.mp3&url=http://verborragica.castpost.com/" width="250" height="40" frameborder="0" scrolling=No></iframe><br>]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Fri, 25 Aug 2006 16:47:28 -0300</pubDate>
      </item>
      
   </channel>
</rss>

