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Pequena morte

Carlos Heitor Barros

Mandei ela sair de trás da mesa e despojar-se de seu uniforme. Usei de todos os argumentos para convecê-la, não tive medo de ser lúbrico, ousado ou doce. Não lembro das exatas palavras, pois o tempo nos muda tanto que nossas lembranças mais precisas acabam relidas por alguém que praticamente não as entende. O que era o temor quando já domado? O que era a ansiedade quando já saciada? O que era o verde quando amadurecido? O que era grande quando hoje ridículo? Minhas palavras se perderam para que eu pudesse me achar. Deixei quem eu era naquele encontro com a morte.

Convivíamos. Seu nome ecoava em meu sono, seu cheiro nos ambientes em que eu freqüentava, sua lembrança aparecia nas minhas letras. Seu peso na minha postura. O medo não era dela, mas da iminência da dor, isso eu sabia. Mesmo assim, demorei a olhá-la nos olhos. Demorei para descobrir como lidar com ela. Comigo. Quem eu queria ser diante do fim. Em diante.

Para seduzir a morte é preciso contar com a verdade. Porque ela olha dentro de você. Através. Ela te sabe. A cada mentira morres um pouco. E ela nem faz nada, só te olha, às vezes com pena, às vezes com carinho, às vezes com ódio. Mas só te olha. Não faz nada. Você é que se sente morrer.

A verdade, no entanto, acaba com o passar do tempo.

Aconselho pureza como escudo. Não inocência que não depende de nada. Pureza, por escolha, por convicção, por vontade.

Vontade que também é tua arma. Vontade que defende e contra-golpeia. Vontade que começa o embate. Que te leva ao duelo. Que te monta na sela, que te empunha a lâmina. Vontade que é o desejo forjado. Aço, asa, assunto.

Imaginação, a outra asa. Pois só ela aliada a vontade nos mantém em vôo. Só ela nos descreve o que vemos lá de cima. Só o futuro vence a morte.

Dispa-se de tudo isso então. Sempre fica em você o que você é. Mas dispa-se das armas junto com a idéia da luta. É tão ridiculo desafiar a morte quanto não fazê-lo. Desafio lançado, em sua melhor forma, com toda sua convicção, desista do combate. A morte não pode ser vencida.

A dança começa com música. Não se dança contra, dança-se com. Se a música for uma forma de felicidade o corpo reage, ritmicamente, como se ela te moldasse ao tempo e não o contrário. Você deslizando com ela em teus braços. Você fluindo, por que o amor te faz fluido. E é mais um dos nomes da felicidade.
Ninguém vence. Vive-se com. Com a mudança, com a perda, com a felicidade.

E morre-se com. Como se vive.

12 de abril de 2007

Ainda sem ocmentários!? Meu Deus...Eu que no fundo queria memso era passar despercebida meio que me perdi agora.

Mas deixar de dizer que foi uma das crônicas mais lindas que li nos últimos tempos, é uma perda de oportunidad emto grande.

Parabéns! Virei fã! E acredite, adotarei a postura de pureza, por convicção memso, porque por natureza é que não daria rs..

Por: Natália | janeiro 6, 2007 02:21 AM

¨¨¨

Belo e contundente, como sempre...

Beijo grande,

Por: Ana Luisa Lima. | janeiro 8, 2007 03:41 PM

¨¨¨

ainda estou pasma...ainda não sei o que escrever..

Por: naka | janeiro 11, 2007 07:41 AM

¨¨¨

Sentada acendo meu Marlboro, dou uma tragada e aguardo que ela apareça para mim... para logo depois renascer tb....

Divino mestre!

Por: Fê | janeiro 11, 2007 03:45 PM

¨¨¨

Desafio, desisto e agradeço...
Acabo de morrer com.

Por: João Victor, um Tangerina | janeiro 14, 2007 08:46 PM

¨¨¨

depois de tempos sumida, volto e leio uma coisa dessas.
texto belo e contundente. como todos os outros seus.
mas ouso dizer que esse texto é, no mínimo, genial.
enquanto procuro mais adjetivos, fico aqui boquiaberta e a pensar no que acabei de ler...
beijos grandes, cahê.

Por: Islane | janeiro 31, 2007 05:47 PM

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