Carlhos Heitor Barros
Querida,
Só um dia longe, eu sei. Por isso ainda não são saudades, é apenas falta... Sinto tua falta todo o tempo, ja me acostumei. Nada agressivo ou doentio, só o suficiente para pensar em mim como dois, para te ver em cada coisa que eu gostaria que visse, para sentir tua presenca em cada momento que eu gostaria de ter vivido junto contigo.
Não fui no restaurante etíope que estávamos tão curiosos para conhecer. Guardei pra uma outra viagem, pra outra vez, quem sabe podermos provar juntos. Sabe como gosto de provar as coisas com você, trocar impressões, dizer tudo com poucos olhares, concordarmos ou discordarmos numa espécie de harmonia que nem nota esses detalhes: nossas diferenças. Nossos gostos são diferentes, às vezes muito parecidos entre si, mas sabemos o quanto são, no todo, bem diferentes. Mesmo assim provar as coisas juntos é um exercicio de convívio e prazer, de cuplicidade sem igual.
Sem você nem peço sobremesa. Gosto de sobremesas divididas. Ou isso ou nem as como. Você sabe disso e me deixa chocolates num bolso da mochila, quando vai embora, pra caso eu sinta falta de um doce...
Nem sempre poderemos vir à Europa, onde achamos tantas cozinhas diversas, tantas culturas, tantos temperos. Nem sempre poderemos ir à Ásia ou outros continentes distantes, mas São Paulo é perto e a cada dia mais se torna um lugar mais interesante de ser visitado. Cada dia comemos melhor em São Paulo, com amigos mais interessantes em volta. O gosto e a companhia. Vários restaurantes interessantes e várias pessoas a se ver...
Às vezes está bem perto. Às vezes penso que viajei tanto só pra ter tanto prazer ao ficar em casa. Pra ser tão feliz com o que está próximo, para acabar com a magia do intangível, com o charme do exótico. Adorei o caminho, mas tanta andança faz a hora de tirar os sapatos mais prazerosa, a hora de botar os pés para o alto, uma vitória. Uma massagem nos pés, então! Pode dobrar um homem…
Fugi do etíope mas acabei caindo em um restaurante do sul da Índia. Delicioso. Sei que vou deixá-la com a boca aguada, mas descrevo: comi samosas e uma sopinha de lentilhas... Depois curry de cogumelos bem picantes com um pão feito com coco na massa. Doce e condimentado. Salgado e aromático.
O tibetano com seu feijao nepalês único, ou talvez o indonesiano, com a miríade de pratos formando a mesa de arroz, foram mais interessantes, mas esses covardemente contavam com sua presença para tornar a experiência mais prazerosa. Dividir as sobremesas e as caminhadas noturnas após.
Ouvir obrigado, em português perfeito, de um legítimo sherpa, conversar com ele sobre as diferenças entre o feijão brasileiro e o da sua terra natal, sobre as discussões que ele tinha a esse respeito com sua ex-namorada paulista que veio trabalhar no distrito da luz vermelha de amsterdam e, ao fazê-lo, lembrar que te prometi preparar a versão angolana do mesmo prato, que eu aprendi com uma amiga portuguesa, namorada de um muçulmano, lá na austrália, me fazem concordar com uma amiga que diz que o mundo é muito pequeno.
Mas intenso para os que o fazem intenso, eu acrecento.
Te amo
Cahe
12 de abril de 2007


