Fernanda Lizardo
Quando criança, nunca entendi bem a intenção das historinhas do marinheiro Popeye. Enquanto todos os heróis eram belos, justos e carregavam consigo todo o poder do american way of life, Popeye era um marinheiro caolho, que fumava cachimbo (tão politicamente incorreto) e era apaixonado por uma magrela meio estúpida.
Eu também não entendia bem por quê ele aceitava levar tanto cacete do Brutus até resolver comer o espinafre, que o fazia um homem forte e másculo (aliás, o Popeye era baixinho, mas tinha uns bíceps enormes; e o Brutus só era grande por excesso de gordura. Se eles fossem personagens contemporâneos, um personal trainer e um cardiologista saberiam bem quem levaria a melhor na história).
Quando o tempo passou, preferi pensar que Elzie Crisler Segar só criou os personagens por causa do conchavo com algum distribuidor de espinafre (anos luz antes de a hortaliça exterminar pessoas por Utah, Idaho e outras bandas norte-americanas, obviamente).
Ainda assim, tem algo que me incomoda: o quê, afinal, ambos viram na famigerada Olívia Palito? Ela não tinha bunda, peito e tampouco era astuta e inteligente. Seria a moça uma precursora das atuais modelos, já despertando os instintos mais primitivos naqueles que se amarram numa Twiggy? O quê raios fazia aqueles homens se engalfinharem pela moça esquisita, nariguda, magrela e abobalhada? Que há gosto para tudo, sabemos, mas.. Vai entender!
Acho que, no fim, o que havia naquela latinha de espinafre do Popeye não era espinafre, nada! Era uma ervinha bem mais intensa, pois só isso explica uma paixão tão frenética pela Olivia Palito e uma coragem tão repentina na hora de enfrentar o Brutus! Mas... Ele não deveria fumar, em vez comer? [e as crianças, ora bolas, vamos dar o exemplo! Um cachimbo é perdoável, mas um enroladinho no papel de seda pega pesado, não?]
Não vou discutir o papel psicológico do Brutus na história, afinal, o que me interessa mesmo é: qual era a origem do sex appeal da Olívia? Será que ela era a única mulher disponível no mundo dos quadrinhos? Será que só depois de puxar um até a última ponta ela ficava encarável? Será que havia viagra naquele espinafre? Será que o Brutus estava há tempos sem comer ninguém?
Nenhuma das hipóteses acima parece uma resposta válida. Acho que, depois de pensar, pensar, pensar, só resta mesmo uma alternativa: dizem que ela pagava um boquete inesquecível.
Fernanda Lizardo estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "Cooper, por Fernanda Lizardo" - que deu origem ao livro O sexto sexo - e a uma possível coletânea com os melhores textos de Cooper (no prelo).
12 de abril de 2007


