
Alexandre Inagaki
(ilustração de Carol Custodio)
Penso em ruivas xifópagas, em Humphrey Bogart mascando chicletes, no céu iridescente e nos desejos que eu e você sussurávamos um para o outro enquanto víamos estrelas cadentes relampagueando a noite de um outubro perdido, quando não passávamos de dois adolescentes cercados de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados, receosos do mundo, mas repletos de impulsos juvenis.
Penso em Thelonius Monk morando em uma casa de Lego, em metáforas despojadas e versos sobre origamis flutuantes, em Cheech e Chong cantando sem sucesso as garotas de um videokê, e que depois da torrente de nãos recebidos terminavam a noite masturbando-se um ao outro. Penso nas gargalhadas gostosas que demos imaginando a cena, na sua risada crepitante que alimentava o fogo das estrelas, em você sentada de cócoras acendendo um cigarro atrás do outro, enquanto eu via a fumaça subir ao céu desenhando efígies de presidentes cassados e trompetistas mortos.
Penso em avestruzes enterrando suas cabeças no deserto australiano, no destino dos siriris depois que perdem as asas, na fúria dos meteoros e no medo de viver. Penso em tonéis de azeite, nos afluentes do Amazonas, na catadupa de idéias desconexas que vêm como uma enxurrada, rompendo os diques da clareza num mar de interrogações. Penso no uniforme do Coringa, na maleta xadrez do Gato Félix, no desenho em que Linus esperava uma noite inteira pela Grande Abóbora como se fosse Godot, nos robôs de Isaac Babel, nos filmes inacabados de Orson Welles. Penso em filmes iugoslavos com legendas em sânscrito e em casais que socam pregos na parede da insônia azul.
Penso na raiz cúbica de 270773, no significado de "klaatu barada niktu", na escalação do Guarani no campeonato brasileiro de 1978, na cabeça de Robespierre depois da decapitação, no brilho dos olhos de James Joyce ao encontrar a calcinha suja de Nora. Penso em amoras amassadas, em vinicultores chupando uvas e deixando-as secar ao sol, a fim de vendê-las depois como passas. Penso no último mergulho de Jeff Buckley, em Thelma e Louise dando-se as mãos antes de voarem para o nada, na cadela Laika latindo para a surdez das estrelas.
Penso no medo que tenho de dançarinos irlandeses e contorcionistas de circo, em quadrinhos velhos de Carl Barks, em melodias tonitruantes, no silêncio de John Cage. Penso em você pedindo provas de amor, na risada que dei ao ler que um homem foi flagrado trepando com um frango congelado, em minhas tergiversações dispersas, em seus olhos dardejando indiferença, em Ian Curtis pendurado pela corda que o enforcou, na etiqueta presa ao dedão de Marilyn Monroe no necrotério de Los Angeles, em carpideiras sorridentes e nas piadas bestas que sempre extraíam um sorriso do seu rosto, mas que já não despertavam nada além de vestígios de memórias.
Penso em Pasárgada, em Hiroshima, em Yoknapatawpha, em Cracatoa, em Atlântida, em Patópolis, em São Paulo. Penso no encontro de Kublai Khan com Marco Pólo. Penso em olhos de ímã e versos que rimam. Recordo você: tudo penso, nada falo.
Alexandre Inagaki, 32, é jornalista, poeta bissexto, leonino, japaraguaio, air drummer e cínico cênico, não necessariamente nesta ordem. Escreve ocasionalmente no blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso. Mora em São Paulo ao lado de seu animal de estimação, a ornitorrinca imaginária Leda Zeppelin.
Carol Custodio participa de um coletivo de blogs, o Selva, e tem página pessoal em http://www.carol.naselva.com/blog.
12 de abril de 2007


