Carlos Heitor Barros
Nessa história de cowboys, um, mais velho, bandido das antigas, pega um garoto para ensinar os seus truques e transformar em seu parceiro. Não escolheu um garoto qualquer, claro. Escolheu um em que viu potencial, sagacidade, pontaria, calma, rapidez. E ambição, a faca de dois gumes necessária e perigosa.
O velho não era um bandido solitário, sempre teve seus parceiros ou seu bando. Mas sempre foi só. Sabia que a regra do negócio era a desconfiança, era o desapego das pessoas, poder deixar pra trás, trair antes de ser traído, ter poder sobre os outros. Sabia disso tudo, mas acordou nesse dia diferente, rasgou o livro escrito com suas próprias regras e decidiu fazer de um jeito novo.
Todo dia ele acordava para ser o mesmo, o que dava uma unidade a sua vida e uma igualdade aos seus dias. O dia diferente foi o que ele decidiu ser diferente, não um novo, que nasceu e morreu da mesma forma.
As regras se foram, pois mesmo tendo lhe protegido da dor todo aquele tempo e sendo originalmente erguidas sobre a mesma, elas lhe pareciam agora mais com tapumes de paisagem do que com muros de contenção. Pensou em fazer o extremo oposto, já que o sucesso delas não o havia realizado como supunha. Talvez uma mudança radical fosse rejuvenescedora.
Ensinou ao novo amigo tudo o que havia aprendido. Contou como havia errado e acertado ao longo dos anos, contou suas piores maldades, mostrou seu lado mais vil. Contou as mentiras e as verdades da profissão, das suas histórias, da sua vida. Mostrou ao outro onde e quando mentia. Mostrou até como jogava pôquer. Qual era sua cara de pôquer... Tudo o que via de bom em si, tudo o que via de podre também. Tudo o que havia de secreto.
A cada passo ele sabia estar errando, mesmo querendo pensar que não, sentir que não, ele sabia. Anos nas costas gritavam isso, toda sua experiência. Mas a liberdade que estava obtendo não tinha preço, não tinha paralelo, não tinha prévia. Já não se justificava mais como um professor para ensinar ao discípulo. Para si mesmo, apenas assumia o prazer que aquilo causava. Ser inteiro, ter identidade com a própria história pela primeira vez.
O garoto adorava aquilo, claro. Era voraz em sua curiosidade. Queria as verdades e mentiras com igual pressa. Não via nas maldades ou virtudes mais que fatos. Não julgava o velho, só aprendia. Mas, como o tempo e a poeira são igualmente penetrantes em sua abrasão, como as experiências mudam o experiente, como feijões enjoam se repetidos a exaustão como único alimento, o garoto começou a se identificar com as histórias, começou a se envolver com o que deveria aprender. Começou a pensar-se futuro personagem, e, de como poderia fazer parte de uma das boas, ou de uma das ruins... Tão garoto, não entendia como o velho ao contar tudo, queria protege-lo de si mesmo (velho) e dele mesmo (garoto), como o velho queria armá-lo, para que se defendesse, e eventualmente, vencesse caso houvesse um confronto. Este preferia a intensidade de saber-se condenado, e por isso viver essa entrega tão febrilmente, do que pretender mais uma vez uma segurança tediosa e nem tão sólida assim.
Foram cúmplices perfeitos pelo tanto que a vida permitiu. Mas ela nunca permite muito, de forma que, variemos bastante no parco tempo que dispomos, nossas felicidades e dores.
O fim prenunciou-se discreto, num gesto pequeno e efêmero. Uma besteira para todos, eu garanto, menos para os olhos do velho. Um movimento com as mãos, apontar e disparar um tiro, um desafio, o fim do “nós contra todos” e o início do “vamos ver quem manda nessa porra...”
Mestres orientais sempre tem parábolas de discípulos traindo os próprios mestres em busca de poder. Sempre pensei que mestres tão iluminados não deveriam se apegar tanto ao poder. Hoje vejo que eles se apegavam aos amigos... esses que eles haviam formado durante todo esse tempo.
O velho sentiu vontade de chorar ao ver a coisa chegando ao fim, tentou ignorar o gesto, tentou esquecer que tinha visto ou imaginar que tinha se enganado. Mas desde já sabia e seu corpo já começou a reagir da forma antiga, sua história voltou a mandar onde ele havia tentado a revolução. Suas escolhas eram fugir ou atirar no garoto.
Não estava sendo dramático, sabia que não faria nada por enquanto, mas já sabia como seria o fim. O mesmo em que ele tentou não acreditar por tanto tempo. Deixou-se definhar um pouco, porque aparentemente nada envelhece mais que a dor, depois voltou a viver normalmente, dentro do possível em sua desesperança.
Carlos Heitor Barros administra uma pequena fortuna em papéis da dívida pública sem nenhuma liquidez, é diletante, boêmio apesar de constantemente sóbrio, bem humorado apesar de constantemente lúcido, dorme a maior parte do dia e adota a sensorialidade e a experiência como métodos evolutivos. Sempre teve, desde seus oito anos, a leitura como o mais constante dos pequenos vícios. Talvez por isso se arrisque a escrever também.
12 de abril de 2007


