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O direito de ser filho da puta

Fernanda Lizardo

Outro dia, certa mulher a quem não estimo quebrou a bacia. Estabacou-se no piso frio do banheiro e partiu os ossos das cadeiras em oito pedaços. Vai ficar cheia de pinos e levar meses para voltar a andar.

- Bem-feito! - eu disse.

Deveria ter dito: "Não desejo mal a ela, coitada...", mas não digo. É bem-feito, exclamado com a pureza infantil de quem não sabe falar mentiras ou camuflar a satisfação inquieta que pulula no peito.

De certa forma, me orgulho por ter essa maldade solta na garganta. Não porque seja bonito, mas porque é sincero. É ato genuíno de ser humano, de gente que sabe experimentar todos os sentimentos, que dá o beijo de boa noite e o pé na bunda. Eu admito que sou filha da puta.

No fim, todos nós somos filhos da puta mesmo. Não no sentido literal da expressão; as mães (por mais putas que possam vir a ser) são santas - das mais imaculadas. Mas somos filhos da puta por essa impureza viscosa natural que mela a carne e os ossos. Não somos imunes aos diabinhos que rodeiam a consciência. Ele são fortes - e abatem os anjos vez ou outra.

Aquele que camufla o negrume de seus atos com a falsidade branca do sempre querer-bem, invariavelmente, faz tudo meio mal-feito. E aí fica uma atitude meio cinza, suja, rota. Isso tem até nome. Chamam hipocrisia. Você grita e ela atende, esbaforida e confusa, sem saber como esconder seu peito tisnado. E chia, encatarrada, numa vontade de berrar a verdade, mas sempre tentando ser correta, social. Às vezes ela sabe apresentar-se polidamente, mas é momento breve. Ao término do ato terá sempre a sensação de ter traído a si mesma.

Não fomos feitos para fingir. O nó na garganta é maior do que tudo e não permite esse enterro das vontades. Só fingimos porque somos tementes, porque somos bicho de grupo que nem sempre se permite chocar o outro. Alguns fingem mais. Outros, menos. E outros, como eu, nada.

É por isso que admiro os que sabem exercer o verdadeiro direito de serem filhos da puta. Gosto daqueles que não têm pesares sobre seus inimigos e que, proporcionalmente, sabem acariciar os amigos. Sem maniqueísmos, como todo mundo deve(ria) ser.

E é por isso que eu disse "bem-feito!" aos ossos esmiuçados da moça que arrebentou os quadris; tive minhas razões e não me importo se os outros não a compreendem. Esse respeito aos meus sentimentos me faz mais alva do que todos os portadores dos pensamentos-cinza que esperavam de mim alguma piedade falsa.

Fernanda Lizardo estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "Cooper, por Fernanda Lizardo" - que deu origem ao livro O sexto sexo (no prelo).

10 de abril de 2006

Gaaaahhhh, nunca mais vou me culpar por ter desejado que vaca que me olhava feio na rua tropeçasse! E ela realmente tropeçou! Sou muito filha-da-puta e sempre acho que vou pro inferno por causa desses desejos ocultos de ver a desgraça (?!) alheia. Não que eu não queira ir pra la, mas enfim... Me diverti muito com o texto. Confesso que não tanto quanto ontem, mas dei boas risadas me identificando com a "filhadaputez" ... Beijocas!

Por: Lívia Martins | março 9, 2006 03:07 PM

¨¨¨

Lívia, não é por nada não, mas acho que mais divertido do que ontem ninguém aqui vai conseguir ser. Pelo menos por enquanto! Por mim eu amanhecia naquele papo!
Abraços!

Por: Fernanda Lizardo (Cooper) | março 9, 2006 04:01 PM

¨¨¨

um doce veneno.

Por: Helê | março 13, 2006 09:22 AM

¨¨¨

já abati anjos que se mostraram mais demonios que os que eu até então conhecia...
filha da putice é só um ângulo, sincero, de maravilhas imperfeitas...
gosto de coisas sinceras, minhas imperfeições se sentem acolhidas.

beijo
ps- papos que desejam amanhecer são os que valem. quero outros.

Por: cahe | março 13, 2006 05:19 PM

¨¨¨

ótima sensibildade a tua

Por: mariana maltoni | março 15, 2006 02:41 PM

¨¨¨

Olhar feio pra uma pessoa e ela cair ultrapassa ser filho da puta - isso daí é mais pra bruxaria e olho gordo!

Por: Fernanda - que matava as violetas da mãe com o olhar | março 19, 2006 08:09 PM

¨¨¨

Ok. Mas nem sempre isto é verdade. A dignidade da pessoa humana não foi criada por purezas infantis etc. e o mundo se divide em mais do que achismos e não achismos. É fácil achar este texto engraçado, difícil é tentar ser mais solidário, compreensivo e cuidadoso, nesta vida que até o momento é a única que sabemos existir. Abraços

Por: Pablo Hidalgo | março 23, 2006 12:55 AM

¨¨¨

"É por isso que admiro os que sabem exercer o verdadeiro direito de serem filhos da puta. Gosto daqueles que não têm pesares sobre seus inimigos e que, proporcionalmente, sabem acariciar os amigos. Sem maniqueísmos, como todo mundo deve(ria) ser."

Todo mundo deveria ser? Haha.

Eu como medida do mundo, bela fórmula.

Meu ego, a medida da verdade...

Quem vc pensa que é, para respeitar tão pouco as opções dos outros?

PS- É fácil rosnar pra quem está numa posição fragilizada, da próxima vez, ao menos arrume alguém pra bater de frente.

Por: Bastos Alcântara | abril 8, 2006 03:48 PM

¨¨¨

Oba! Finalmente consegui arrancar um comentário exaltado daqui. Por um minuto achei que Cooper estivesse perdendo a força... he, he
Beijos estratégicos...

Por: Fernanda Lizardo (Cooper) | abril 10, 2006 12:42 PM

¨¨¨


 
 




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