Carlos Heitor Barros
Naquele inverno nevou no Rio. Nunca antes havia acontecido, acho que nunca depois também. Nevou bastante. Cobriram-se as praias de neve, cobriram-se as montanhas. Neve caindo é uma poesia meteorológica. No Rio a beleza foi desumana. O frio matou gente. Foi desumano para os miseráveis tropicais, ele também.
Eu lembro das minhas lágrimas congelando com o frio. Lembro de senti-las saindo quentinhas dos olhos e rapidamente resfriando, descendo geladas pelo rosto e depois os seus rastros ardendo. Normalmente minha memória é péssima. Só me lembro das mentiras que conto, pra poder repeti-las se preciso, mas em alguns momentos ela é bem clara. E precisa. Acesso caótico, ela decide quais momentos são esses, não eu. As lágrimas daquele inverno, quando reaparecem, trazem o frio com elas.
Quando o tempo começou a fechar, fui me abrigar onde eu achei mais seguro, mesmo sabendo que lugar nenhum seria seguro: corpos femininos. Carinhos como casacos, cavidades como casa. Deitava-me sobre elas, sob elas. Falava tudo para elas. Mas não me entreguei e, sem entrega, toda aquela proteção não me atingia. O que foi triste, como tudo foi naqueles dias, mas elas foram maravilhosas. Sempre são.
Eu sou um mulherengo. No sentido clássico, vadio, canalha, engraçado, doce. Não sou um galinha, uma máquina eficiente na conquista, numérico, sem envolvimento. Aprendo muito com eles, mas não sou assim. Me envolvo sempre, gosto, escuto e o que é pior: volta e meia me apaixono. Corro para um lado e para o outro, me confundo, me divido, me fodo. Clássico. Trágico. Cômico.
A molecada carioca inventou rapidamente vários jeitos de se divertir com o clima bizarro. Snowboard nas Paineiras, descer as pedras do Arpoador para cair no mar já de roupa de neoprene, guerra de neve na praia, patinação no gelo em plena Lagoa Rodrigo de Freitas. Eu não me lembro de ter me divertido com aquilo. Apreciei a beleza, muito, mas melancólico, como se fosse uma poesia triste. Tocante, porém distante de sorrisos.
Comecei a achar que me dividia por causa delas. Por ser impossível escolher, por ser cada uma tão diferente, cada uma tão bela, cada uma tão única. Não que eu me sentisse completo, mas sentia que tinha muito, me sentia sortudo, sentia muito. Me sentia responsável também, tentando o impossível, instável, inseguro. Tudo era intenso, pois tudo era fugidio. A intensidade das últimas coisas...
O frio, quando brutal, aumenta muito a fome. Às vezes só se esquenta de dentro pra fora. Lembro do meu metabolismo mudando, do meu corpo pedindo cada vez mais comida, mais do que podia suportar às vezes. Eu havia acabado de me alimentar e já sentia fome. Ou sentia que em pouco tempo teria mais fome. Gosto muito de comer, sempre gostei, mas a sensação de insaciedade, que não passa, de sabê-la sempre a espreita, é angustiante. Cansativa. Triste.
Só uma noite me lembro de ter saído do tempo, ter me transportado. Fui contagiado por um sorriso quente. Não resisti a esquecer-me de todo o resto. De quem eu havia sido até então. De quem eu voltaria a ser na manhã seguinte, quando sair da cama seria quase insuportável. Descansei de mim. Nela.
Primeiro o sorriso, depois deitar na neve e brincar de desenhar um anjo balançando as pernas e os braços. Depois ainda, seu corpo. Aninho.Um pouco de chocolate quente feito no microondas com leite de soja e chocolate meio-amargo derretido dentro da xícara.
Lembro que não sentia fome nesse dia. Não sentia vontade de nada, tudo foi bem-vindo.
Acordar no dia seguinte não foi tão ruim. Eu sabia que não tinha nada, mas lembrava ainda do que podia ser. Ainda estava quente. Viver o vento frio nos dias seguintes, ainda me congela, hoje.
O tempo entre-cânceres, passado, presente e futuros, o lugar próximo a capricórnio, os trópicos foram desolados pelo mais terrível dos acontecimentos. Ou mais um dos terríveis. Previsto, esperado, mas inconcebível, se não vivido: o fim.
O inverno é só mais uma estação e depois dele a primavera floresce. Parte da transformação. Do ciclo. Mas o frio maltrata mais a cigarra que a formiga. O frio castiga quem não tem fé. É pior pra quem tem a pele fina. E, quando é por dentro, só o tempo é abrigo.
12 de abril de 2007


