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Espelho plano, planos no espelho

Fernanda Lizardo

Eu queria ter espelhos instalados em todo o quarto. Me dei conta disso ontem, enquanto rolava na cama - me contentando com imagens parcas de meus seios e quadris refletidas nos dois vidrecos do armário em frente ao leito.

Queria ter vidros inteiros em todos os graus, ilha cercada de luxúria por todos os lados e alma aprisionada pelo orgasmo que é ser discípula de Narciso.

Deitando de costas, de bruços, de lado, não importa: sempre que me virasse eu me enxergaria. Pernas, mãos, pêlos, pele cor de caramelo, desejo com cheiro azul (leve e reconfortante), ninho de chocolate.

E quando estivesse com um amante - qualquer que fosse ele - poderia fitar sua pélvis apunhalando meu corpo de flor de lótus. E veria minha expressão de gozo, minha ânsia em tê-lo mais intenso e minha tristeza ao perceber que as pilhas do vibrador perderam intensidade.

E assim que ouvisse música, poderia dançar para todas de mim, pista exclusiva de mulher única, nado sincronizado sobre lençol seco e sexo molhado.

Ah! Quem dera! Espelhos por todos os lados: para derrubar vinho no lençol e ver múltiplas manchas arroxeadas macularem o branco, para consumar os pecados coletivos e solitários diante de muitas testemunhas, para admirar minha figura e ser arrebatada por mim mesma...!

Mas, malditos espelhos, tão minguados, cheios de pudores de quem tem medo de mostrar um pouco mais. Dividem minhas formas em linhas e pedem que eu arrede os relevos a cada vontade de espiar um pouco mais.

Resolverei isso hoje: chamarei um homem para instalar tais espelhos. E para, em seguida, instalar-se em mim. Quererei saber se eles funcionam mesmo.

Fernanda Lizardo estudou Licenciatura em Educação Musical na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), mas um dia resolveu chutar o balde e achou que dava para viver de jornalismo. Foi repórter e produtora da TVE-Rede Brasil. Atualmente é Editora Assistente na revista Seleções de Reader's Digest e escreve em um monte de sites. Nas horas vagas gosta de incorporar Cooper, personagem do blog "Cooper, por Fernanda Lizardo" - que deu origem ao livro O sexto sexo (no prelo).

5 de abril de 2006

Eu também quero espelhos!!!

Por: Alessandro Martins | fevereiro 8, 2006 07:55 AM

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“Espelho, espelho meu existe alguém mais sedutora do que eu?”

Ah! Se o espelho fosse eu... rs

Por: Carlinhos | fevereiro 8, 2006 08:44 AM

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smoke and mirros !!! and though the smoke i saw a mirror it reflects the self ! the bodies the soul !!
smoke and mirrors and i see snow and apples over the window looking at me ! for how long should the dwarfs be out in the forest !

Por: guetoblaster | fevereiro 8, 2006 01:41 PM

¨¨¨

eu tive uma sogra que tem um apartamento na praia cheio de espelhos e outro na cidade também repleto de espelhos e um quadro enorme de uma santa vesga no quarto.

eu gosto dela, a ex-sogra.

Por: Alicia | fevereiro 9, 2006 01:13 AM

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Ler sobre despudor e sexo nunca foi tão belo até então...

Por: Ana Luisa Lima | fevereiro 9, 2006 06:13 PM

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Diz um herege de uma terra inventada serem os espelhos e a paternidade abomináveis, por multiplicarem os homens.
Duvidei a primeira vez, ao ver meu prazer dobrado por um deles. Depois, ao deparar-me com o caleidoscópio (ao reencontra-lo, adulto) entendi que intensidades podem tender ao infinito quando refletimos-nos.
Muito prazeiroso teu texto. E inspirador.

Por: cahê | fevereiro 12, 2006 03:08 AM

¨¨¨

O Cahê está certo. Jorge Luis Borges não devia estar enxergando um palmo a sua frente quando escreveu essa frase sobre os espelhos.

Por: Alessandro Martins | fevereiro 12, 2006 08:35 AM

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O Fengshui fala mal de ter espelhos refletindo a cama, mas fiquei com vontade tbm!

Por: Fernanda | fevereiro 17, 2006 10:48 PM

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