[Casal.]
Daniela Lima
A vida começava no radinho de pilha e acabava no sono diante da televisão, sua companheira – preferia chamar assim a esposa – sempre o acordava com as mesmas palavras: “é melhor dormir na cama, ou vai ficar com dor na coluna”, a frase simbolizava o fim de mais uma segunda-feira, ou seria uma terça? Tanto fazia, tudo era sempre igual; começo e fim costurados, tão próximos. E seria assim até o dia em que. O sono era muito grande, não tinha tempo para divagações, não tinha tempo. A noite estava fria, é sempre assim em julho. Tentava aquecer o corpo abraçando a velha senhora – pouco açúcar –, mais alguns minutos e: sono.
Despertava com o cheiro do café, sempre tão fraco, muito diluído, tal qual o seu desejo ao longo dos anos: pouco açúcar. Depois era ligar o radinho, ouvir as notícias e, por fim, varrer a entrada do prédio. Desceu as escadas com dificuldade – por que justo aquele prédio não tinha elevador? Merda: sentiu o coração bater ao olhar o rosto daquela moça. Foi se aproximando devagar, tentando não sorrir, embolava palavras e pensamentos; cama de gato. Seria ele um sujeito amoral por pensar essas coisas? Sim, ainda lhe restava uma borra de desejo no corpo. Uma grande surpresa, mesmo pra ele. Nossa, há quanto tempo não se sentia homem? É que os cabelos brancos haviam lhe roubado um pouco da masculinidade: pouco açúcar.
A vida começava num trago e terminava no corpo dele: “tira esse porra de mim, sua puta”, o gosto doce simbolizava mais um adeus, seria este o último? Imediatamente vestiu a camiseta; sentia vergonha do corpo ao fim do primeiro ato – quanta verdade ela poderia suportar? Talvez a medida exata seja a. O sono e o medo engoliram o resto do seu desejo, melhor dormir. A noite estava quente, é sempre assim em janeiro. Agarrou-se a ele – a esperança – munida de agulha e linha, tentaria lhe costurar os impulsos. Sem sucesso; muito açúcar. Mais alguns minutos e: sono..
Despertou com o toque estridente do telefone celular, sempre havia mais alguém: muito açúcar. Depois era trocar a calcinha de renda preta por uma de algodão branca, tirar a meia-calça e, por fim, chorar um último beijo. Desceu as escadas com dificuldade – por que justo aquele prédio não tinha elevador? Merd: esquecera de abrir o portão antes de deixar o apartamento; mais alguns minutos no prédio dele. Bom. Em poucos segundos estaria chorando! O porteiro – tão velhinho! – se aproximou para abrir o portão. Tão gentil, parece que os anos devolvem certas virtudes infantis ao homem. Uma criança. Como ela gostaria de saber apenas de verdades infantis naquele momento. Riu. Sim, ainda lhe restavam as divagações, tinha tempo – e desejo.
– O que você tanto olha lá fora?
– Aquela lona azul; o que é?
– É a casa do porteiro.
– Já reparou que tem um buraco bem no meio dela?
– Não.
– Será que ele está nos olhando?
– Duvido.
– Será que um dia vamos ser como ele?
– Velhos?
– Não, sem desejo.
***
Sentia agora a mesma estranha felicidade, a mesma tristeza de então. Essa tristeza significava: estamos na última parada. Essa felicidade significava: estamos juntos. A tristeza era a forma e a felicidade o conteúdo. A felicidade preenchia o espaço da tristeza.
Leia mais Daniela Lima no site Verborrágica.
12 de abril de 2007


