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Como se aproximar da verdade

Carlos Heitor Barros

A mítica cidade litorânea recebia uma quantidade de luz quase absurda. Dias longos, peles curtidas, olhos protegidos ou magoados de tanto que o sol brilhava. Talvez por isso, certamente por isso, o encontro foi marcado para a noite. Os três seres, por discrição e preferência, decidiram que a noite seria seu teto, que a visão seria deferida, ainda que tão importante, tão presente.

Eu minto. Se é pra me apresentar, é bom começar por um paradoxo. Mentia mais antes, muito, o tempo todo. Sempre achei que assim, poderia me adaptar a cada situação. E me adaptei. Mas depois de um tempo, maldição dos bons mentirosos, já não sabia mais nada de mim. Conhecia as regras, as condutas, conhecia a forma como minhas vontades brotavam, mas não mais a mim. Não sabia como elas brotariam sem o personagem, sem as regras, sem as condutas. Por curiosidade resolvi falar a verdade. Para isso tive que ir descobri-la. Aqui mesmo.

Seres absolutamente corriqueiros a primeira vista, absurdamente únicos uns para os outros. Banais em sua existência miraculosa, nesse encontro improvável, na inquietude. Banais não por si, mas porque os fatos assim o são. Se existem é porque por menor que seja a chance, num universo infinito em possibilidades, todas elas se realizam, mesmo as bem pequenas. Mesmo as únicas.

Me apresento dizendo logo que não presto: "oi, eu sou um vagabundo e não presto. Também minto muito." Tudo verdade, claro, mas gera dúvida. E dúvida é um néctar para as pessoas. É a hora em que elas se reconhecem. "também sou uma fraude!" já escutei em retorno. Ai eu rio. E digo: mas eu, nesse caso ainda não fui... e estou tentando deixar de ser, pra ser sincero. Agora eu só falo a verdade, mas tão absurda que as pessoas entendam que é mentira como defesa. Mas só quando eu quero.

O ritual era simples pois era intuitivo. Simples ou impossível. Juntaram-se os três, sob um desenho astral e estação anual determinados e se conheceram. Riram de uma doutrina agnóstica, das dessemelhanças compartilhadas, do próprio prazer. Lembraram-se dos velhos cegos, codificadores da língua comum em que teceram seu encontro, dos dicionários inimigos, dos códigos partilhados. Sentiram pela primeira vez suas peles, pois que nelas estava a diferença. Nelas acabava o sonho e começava a fome.

Sou péssimo em me apresentar. Ou ótimo. Visto um personagem adequado e mando ver. Engraçado, inteligente, sagaz. Ou triste, seco, distante. Tanto faz. Pronto, tô apresentado.

Medo, medo pra caramba. Pele fina. Boa pra sensibilidade, ruim pra resistência. Esgarça fácil. Medo da dor? Não, mais medo do medo mesmo.

Quando o que estava dentro de cada um não mais lhe cabia, caminharam para a arena. Montaram seus tigres domesticados, os mesmos que os tinham levado até ali, despiram suas armaduras de pele e deixaram a mostra seus espelhos. Como se por baixo das peles habituais tivessem a carne recoberta por espelhos. Como se quando conseguissem olhar-se tão profundamente, ver a si no outro fosse o aprendizado. A selvageria podia pulsar em suas montarias, mas seus olhos encantaram-se com a possibilidade de formas muito mais amplas. Não só brutas, não só cultas. Vastas.

Meu talento é me cercar de pessoas talentosas. Vivo muito bem, principalmente depois de descobrir em mim algum talento, mesmo que tão torto.

A mágica é a forma mais fácil de se lidar com o mundo, o mundo é a forma mais difícil de se lidar com a mágica. O embate começa com o abandono do signos, um abraço triplo forma um caleidoscópio em que o que existe entre eles (mesmo que nada) é multiplicado infinitamente, ou senão, infinitamente o suficiente para a percepção. Um infinito secreto, particular, indivisível e inexplicável. Vive-lo ou não é a escolha.

Desisti até mesmo de mandar na minha própria vida. Descobri gente mais competente para fazê-lo. Quase uma relação de submissão, mas na verdade sou bem rebelde. Acho que eu só busquei alguém para poder desobedecer, e ter um parâmetro. Mas ganhei liberdade ao invés de ordens, e com a liberdade uma espécie de amor expansivo, leve, meio inesperado até. Como se um potro que solto voltasse lustroso, forte, mas selvagem, depois de um tempo. Daqueles que se admira e se teme. E só se teme do tanto que se admira.

Não sei como termina. Não sei mesmo. Fantasias em palavras, lutas dançadas, idas turísticas ao inferno, degustação de depravações e de sabores. Amizade.

Existe um conceito hindu que associa à impureza a dor. Eu costumo sentir em certos perfumes felicidade.

Carlos Heitor Barros administra uma pequena fortuna em papéis da dívida pública sem nenhuma liquidez, é diletante, boêmio apesar de constantemente sóbrio, bem humorado apesar de constantemente lúcido, dorme a maior parte do dia e adota a sensorialidade e a experiência como métodos evolutivos. Sempre teve, desde seus oito anos, a leitura como o mais constante dos pequenos vícios. Talvez por isso se arrisque a escrever também.

12 de abril de 2007

Meu caro. Seja bem-vindo a Cracatoa Simplesmente Sumiu.

Abraços fortes!

Por: Alessandro Martins | janeiro 31, 2006 11:26 PM

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Que bela apresentação!
E seja bem vindo a Cracatoa!

Por: Islane | fevereiro 1, 2006 12:33 AM

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Caheeee lindo!!

A única pessoa no mundo que briga comigo a mesma altura!!

Bem-vindo a ilha! :D

Por: Alicia | fevereiro 1, 2006 12:17 PM

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(não Ale, não fique com ciúmes)

Por: Alicia | fevereiro 1, 2006 12:18 PM

¨¨¨

Olha. Acho que vamos ter que discutir a relação. Os três.

PS - Aposto que o Cahê notou que eu escolhi a foto em que ele está com a cara mais safada para pôr na capa.

Por: Alessandro Martins | fevereiro 1, 2006 12:24 PM

¨¨¨

Adorei o texto.

Beijo,

Por: Daniela Lima | fevereiro 1, 2006 02:03 PM

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Olá meu querido amigo,
Amei sua chave de ouro .....
Um beijaum
Thi

Por: Thiago Gonçalves | fevereiro 1, 2006 03:14 PM

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Cahe Jones no melhor estilo Cuban Council.

Por: Rodrigo David | fevereiro 1, 2006 07:14 PM

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belo.

Por: karla candeia | fevereiro 2, 2006 11:05 AM

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Gostei. Boas idéias... nos faz reletir. Belas palavras.
Não enrole. Amarre.
Quanto ao "lindo", sinto discordar... mas, "...it's in the eyes of the beholder", né?

Abraços e parabéns, Gordo... Sucesso!

Por: Miguel Quental | fevereiro 2, 2006 02:25 PM

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Valeu sebastião!Gostei!

Por: Zeca | fevereiro 2, 2006 03:26 PM

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Cahêeeeeeeeee!!!
seja bem vindo meu querido! bjkas

Por: karlinha | fevereiro 3, 2006 11:48 AM

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A estética e a plástica do texto definem sua obra!
O imaginário consistente exprime sua filosofia. Um estilo único.
Belissimo mestre!!!

Por: Fê Juanita | fevereiro 3, 2006 01:36 PM

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Unfortunatelly I have a kind of a hangover so I didn't understand quite well the text. My portuguese is also not so good. But I'm sure that it rocks From Butchers!!
Congratulations and susex!

Por: Bob Mauretts | fevereiro 3, 2006 08:14 PM

¨¨¨

ate pra se apresentar usa tríades hihihii
nada melhor que os paradoxos pra começar chutando (com todo carinho) a porta de cracatoa com seus pezinhos cariocas 40 e tal.
lindo e insubstituivel como tudo que vem de vc.
amo

Por: tam | fevereiro 4, 2006 12:36 AM

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Cahe!
Acabei de descobrir mais um motivo pra te admirar...
Parabéns!
Muitos beijos,
Gabi

Por: M.Gabriela | fevereiro 4, 2006 10:39 AM

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Cahê
amadíssimo
as verdades sobre você também são paradoxais: é certo que o coraçãozinho vagabundo "não vale nada", mas o muso-escritor tem um valor enorme!
orgulhosa...
Giul

Por: Giulliana | fevereiro 5, 2006 01:35 PM

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Sem palavras, mas com um texto longo e enrolado… da até pra se perder, não na sua apresentação, mas na minha cabeça. Solto, mas amarrado, complexo, mas simples, o comentário. De qualquer forma, você me conhece, te invejo demais, sempre busquei isso pra mim, não encontrei, fiz uma, ou um, uma hora a gente descobre.

Concluo, se é que é possível, que gostei demais, mesmo percebendo nisso uma forma de aumentar as saudades... Opinião de mentira, só ao vivo!

Por: Gwgon Lingua de Sogra | fevereiro 5, 2006 08:42 PM

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Sem palavras, mas com um texto longo e enrolado… da até pra se perder, não na sua apresentação, mas na minha cabeça. Solto, mas amarrado, complexo, mas simples, o comentário. De qualquer forma, você me conhece, te invejo demais, sempre busquei isso pra mim, não encontrei, fiz uma, ou um, uma hora a gente descobre.

Concluo, se é que é possível, que gostei demais, mesmo percebendo nisso uma forma de aumentar as saudades... Opinião de mentira, só ao vivo!

Por: Gwgon Lingua de Sogra | fevereiro 5, 2006 08:46 PM

¨¨¨

ele costuma falar a verdade sobre as piores mentiras... ele me ensinou a ser um escelente negociante no univeros dos sentimentos....hj em dia aplico sua ciencia e nao estou muito feliz as vezes, mas conciente, e isso ja 'e o suficiente...
ai mestre, ai muso....
so ele faz colocacoes a seu tamanho e forma...
bjssssssssssssssssss

Por: dea peil | fevereiro 6, 2006 04:07 PM

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adorei.

o prazer fica todo nosso.

:)

Mariana - aiga da Mari, amiga da Ana.

Por: Mari Nassif | fevereiro 6, 2006 08:37 PM

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ele é muso e ponto.

Por: insANA | fevereiro 11, 2006 10:06 AM

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Que deliciosa mentira. Porém é bem verdade que por essas e outras chamam-lhe de muso.
Esse é O Espirito da Coisa. Você vai ver, é assim que que vamos conseguir nossa revolução. É nessa fome sensorial que nós entramos em ação. Amprender no outro aquilo que queremos em nós, pra todos... Não tenha medo nesse tipo de luta todos são ganhadores. E pra que saber o final? Aí fica sem graça, igual a um filme revelado, ai está o drama. O que importa sempre são os meios, os fins que se acabem sozinho.
Excelente performance!

Por: 1B | fevereiro 13, 2006 11:28 AM

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Mas é verdade???

Por: Gabriela Flores | fevereiro 13, 2006 05:42 PM

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"oi, eu sou um vagabundo e não presto. Também minto muito."
Será que, ao dizer que não presta, você estaria mentindo? Ah, sei que estaria! Continue não prestando. Continue, sim!
Beijos estratégicos...

Por: Fernanda Lizardo | fevereiro 14, 2006 06:47 PM

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texto foda...muito bom mesmo....

parabens!

Por: leo | março 13, 2006 06:00 PM

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