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A Eterna Arapuca

Alexandre Inagaki

Nunca me envolvi com uma mulher que conheci em uma balada. Mas o motivo não é preconceito, muito pelo contrário. Meu problema é outro: absoluta falta de cara de pau para fazer aquele approach clássico, de abordar uma garota do nada e proferir uma cantada qualquer. E, ainda que conseguisse envolver alguma incauta, como conseguir trocar um mínimo de idéias qualquer na balbúrdia de uma pista de dança ou no zunzunzum de um bar com música ao vivo? Particularmente, prefiro trocar palavras com mulheres que estejam razoavelmente lúcidas e minimamente interessadas em entabular uma conversa agradável.

Mas o fato é que, já ciente da minha absoluta falta de xaveco, limito-me a ficar em meu canto, bebericando alguma coisa, ensaiando alguns passos desajeitados de dança e, principalmente, olhando as pessoas. Porque uma das ocasiões mais propícias para se conhecer o comportamento humano é observar como homens e mulheres agem durante uma festa, front estratégico de embate entre os sexos.

Estávamos, eu e meu amigo Ricardo, descansando após horas de desabalada dança, às duas da madrugada da festa de aniversário de uma amiga nossa, quando começamos a contemplar as estratégias de sedução de nossos incautos colegas de sexo e, principalmente, os seguidos furos n'água cometidos por eles. Nosso primeiro alvo de risos foi uma dupla que insistia em assediar seguidamente todas as garotas do ambiente, com cantadas do tipo "você é um anjo que caiu do céu". Começavam pelas mais bonitas, e iam descendo o nível de exigência estética a cada investida fracassada que faziam, sem perceber que carbonizavam cada vez mais seu filme entre as mulheres da festa. Como homens são burros, meu Deus.

Fato número 1: diante de uma bela mulher, todo homem, que já não é muito provido de inteligência natural, torna-se mais aparvalhado ainda.

Nossa colega aniversariante é uma daquelas mulheres que, quando desfilam pelas ruas, causam torcicolos por onde quer que passam. De quebra, tem duas irmãs que herdaram os privilegiados genes da família. Naturalmente, pois, ela vive cercada de "amiguinhos" que a paparicam constantemente, buscando em cada sorriso seu a esmola de uma esperança futura. Foi-nos muito instrutivo, pois, observar a miríade de homens que, noite afora, cortejaram ela e suas duas irmãs.

Fato número 2: diante de uma bela mulher, homens agem como insetos cegos que buscam o calor de uma luz, batendo com a cabeça em lâmpadas e paredes vez após vez, até que caiam estatelados no chão frio dos rejeitados.

Não pude deixar de sentir certa piedade por meus colegas. No intervalo de duas horas vi cinco pretendentes serem esnobados pela irmã caçula de minha amiga, embora sempre com muita educação, simpatia e cortesia. Conversando com um dos desesperançados, investiguei a razão do fora que levou: "Ela me disse que não ficaria comigo porque senão o meu amigo, que também levou um não, viria a cena e se sentiria mal".

Fato número 3: poucas coisas causam tantos estragos neste mundo quanto uma mulher que possui plena consciência de sua beleza. E que se torna tanto mais perigosa à medida em que se compraz com o seu poder de fascínio perante os homens. Porque bastam um belo par de pernas e um sorriso sugestivo para que toda a nossa racionalidade seja aniquilada em um piscar de olhos. Que o diga um ex-colega meu de banco, gerente de uma agência que resolveu descontar um cheque de milhares de reais simplesmente porque a cliente sentada em sua mesa era ruiva e exibia um decote daqueles que o Papa Bento XVI jamais aprovaria. Como era de se esperar, ele foi penalizado na região mais sensível do corpo humano: o bolso.

Enquanto mergulhava, levemente embriagado, pela insônia melancólica que bate às quatro da manhã em meio a uma balada, reparei em três rapazes completamente fisgados pela beleza de minha amiga aniversariante. Enquanto ela estava completamente absorta, sentada em uma mesa em animado colóquio com uma colega, via meus camaradas orbitando em torno daquela mulher, compreensivelmente aparvalhados pelo seu sorriso e pelo vestido repleto de entradas e reentrâncias que ela trajava naquela noite. Homens que a presenteiam com bombons, carregam suas sacolas de compras, sorriem latindo a cada palavra que ela lhes dirige, feito mendigos agradecendo por migalhas de pães adormecidos.

Ao observar tais cenas, faço a inevitável pergunta: será que um dia chegarei a esse estado de indolência mental?

Nos estertores finais da madrugada, converso com minha amiga e ouço as suas queixas. "Tudo é tão vazio e igual", diz ela. Há excesso de ofertas e escassez de qualidade. Os homens cansam, os relacionamentos cansam, todos os lábios acabam se assemelhando, todos a enfastiam. "É verdade", digo a ela em tom de brincadeira, "estou cansado desta minha vida de homem-objeto. Queria ser encarado como algo mais além de um rosto bonitinho". Ambos rimos melancolicamente de nossas respectivas agruras amorosas, e assim saímos do bar em direção ao dia que já despontava no céu, enquanto o vento frio da manhã nos balbuciava histórias de malabaristas mancos, bailarinas vesgas e entrelinhas embaraçadas.

Alexandre Inagaki, 32, é jornalista, poeta bissexto, leonino, japaraguaio, air drummer e cínico cênico, não necessariamente nesta ordem. Escreve ocasionalmente no blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso. Mora em São Paulo ao lado de seu animal de estimação, a ornitorrinca imaginária Leda Zeppelin.

12 de abril de 2007

Texto legal.. um conto em uma esquina bem pertinho da gente.

Por: Escrava do gustavo | janeiro 18, 2006 11:37 AM

¨¨¨

Isso tudo é bem verdade. Nem pensamos... apenas corremos muito para tentar chegar a algo, com um medo e pressa incríveis, quando, no final, acontece essa incrível "repetição de lábios, rostos, relacionamentos". muitas e muitas vezes...

se algum dia tudo começar a andar mais devagar... quem sabe.

Por: Alexandre | janeiro 18, 2006 01:27 PM

¨¨¨

muito revelante... estamos sempre buscando o óbvio, seja escrito, falado ou ensinado... Acho que está abordagem atual dos relacionamentos, é pouco util pra quem tem o temperamento mais sossegado... Acabamos ficando a ver navios por nao sabermos como chegar!!! mas uma coisa realmente existe de bom... se tentar 100 vezes e tiver um porcento de aproveitamento existe a chance de achar uma menina especial e ai....

Por: hemersonr | janeiro 18, 2006 02:17 PM

¨¨¨

Inagaki! Seja muito bem-vindo ao Cracatoa...

Por: Alessandro Martins | janeiro 18, 2006 02:30 PM

¨¨¨

Hihihhi
o texto é ótimo, Ina, mas as mulheres tbm ficam ridículas paquerando qdo estão num fim de festa.
Ah, e os homens geralmente começam com as lindas depois vão diminuinda a exigência(alcool, concorência,resistência das moças...),
qdo muito fissurados nem ligam mais se estão com uma mocréia no fim, não querem sair sozinhos hihihi
Um bj, e mto boa sorte aqui.
Laura
PS: não entendo como fica só, juro tsc tsc tsc hummmmm hihihi
já me conhece,né? é a idade...

Por: laura | janeiro 18, 2006 10:09 PM

¨¨¨

Interessante observação a sua. Preciso dizer que eu também nunca me envolvi com uma mulher que conheci em alguma balada. (rs) Verdade.
Grande beijo.

Por: Simone | janeiro 18, 2006 11:11 PM

¨¨¨

Apaixonante. Observar assim deve ser divertido!

Por: Fernanda | janeiro 19, 2006 06:13 PM

¨¨¨

Seja bem vindo ao Cracatoa!

E devo admitir que os homens agem exatamente dessa forma quando encontram uma mulher bonita no caminho... ô racinha esquisita, viu?! hehehehe
:)

Por: Islane | janeiro 19, 2006 09:54 PM

¨¨¨

Ah, esse é meu amigo-ídolo Ina!!! Mas... indolência mental?! ò.Õ Chega sim, ah chega viu! E com todo o (melhor) estilo do mundo! Hahaha.

Por: Roberta de Felippe | janeiro 19, 2006 10:06 PM

¨¨¨

Seja muitíssimo bem vindo Alexandre!

Ler sobre homens me fascina... e sempre penso "porque preciso tanto 'disso' ??
Pior do que esses desesperados das baladas são os inconvenientes que falam frases impróprias e incômodas em plena luz do dia. Acho que vou escrever uma crônica sobre as dores de ser mulher... ia sair quase um livro!

Vocês são isso aí e um pouco mais... Desesperados quando estão solteiros, desesperados quando estão comprometidos (daí vem a traição).

Ôooh Deus, porque preciso tanto disso???!!

Por: gabi. | janeiro 20, 2006 12:27 PM

¨¨¨

esse JAPA faz TIPO.
;>)

Por: Biajoni | janeiro 25, 2006 01:51 PM

¨¨¨

homens são uma loucura, mas é bom saber desse poder que nós mulheres temos.
beijos e seja bem vindo

Por: Marina | janeiro 26, 2006 02:22 PM

¨¨¨

Concordo mas um pouco exagerado tenta ver o outro lado e perceberá que nem tudo é assim, não somos tão grandes, nem tão boas em negação, nem tem oferta demais pq tem muito mais mulher no mundo q homem e tirando gays, casados e baixa qualidade o que sobra?

Por: iva | janeiro 26, 2006 04:11 PM

¨¨¨

Muito bom... se trata de uma estréia? Então que estréia heim... um texto legal, que flui... falaram sobre o exagero...talvez, mas observo isso por um outro vié, vejo esse 'exagero' como parte cômica no texto, é como numa conversa, vc contando uma história invariavelmente exagera ao relatar alguma coisa, mas aquilo não é forçado, é engraçado, tem a ver com o contexto e dá uma descontraída... Belo texto... parabéns ao Inagaki e a todo pessoal do Cracatoa; vcs são feras.

Grande abraço

Por: Henrique Luna | janeiro 28, 2006 11:45 AM

¨¨¨

Hehehehe...uma pequena correção... almocei uma letrinha ali... onde se lê "vié", corrijam e entendam como "viés"... :)

Abraço

Por: Henrique Luna | janeiro 28, 2006 11:47 AM

¨¨¨

Sensacional. É tão verdade que até doi e constrange hahahah

Por: mark | fevereiro 10, 2006 10:36 AM

¨¨¨

Como é ruim carregar essa dor de cotovelo????

Por: Erik | setembro 9, 2006 07:25 PM

¨¨¨
 
 




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