Ela entrou no carro, fechou a porta e colocou as botas novas, que usava, sobre o painel. Sabia do que eu gostava. Passou a mão sobre os canos de couro negro e soltou um gemido, quase um murmúrio, deleitando-se com a visão das próprias pernas e com a sensação da musculatura enclausurada pelos cadarços que subiam até acima dos joelhos.
Sem dizer nada, liguei o carro e engatei a marcha. No semáforo, não resisti e comecei a beijar e a lamber aquela visão tentadora. Segurou-me levemente pela nuca como a apenas conduzir por onde meus lábios e língua deveriam passar por sua nova aquisição.
O sinal já estava verde quando voltei a mim. Notei que, no carro ao lado, duas garotas observavam a cena. Nem eu nem ela fizemos caso. Mesmo porque elas sorriam e pareciam ter gostado daquilo. Não importava.
- Você é minha nova aquisição. Estou comprando você com essas botas.
A delícia de ser, para ela, uma coisa. Segurou em minha orelha e puxou-me próximo a sua boca. Sussurrou:
- A partir de hoje, quero que tudo o que você faça, faça pensando em mim. O que você pensa, os caminhos por que anda, seus prazeres, seus tormentos. O que você escreveu para outras pessoas, de agora em diante, é para mim. O que você cantou para outros ouvidos foi em meus ouvidos que você sussurrou. Quero tudo voltado para mim. Seu presente é meu, seu futuro é meu e o seu passado, que de nada serviu senão para conduzi-lo até aqui, com a língua em minhas botas, é meu. Tudo meu. Mesmo aquilo cuja relação comigo não seja óbvia. Tudo.
Tomava posse de meus territórios. Aquelas botas eram o delicioso símbolo de seu poder sobre mim. Ainda que não estivesse sobre aquele salto agulha, ainda que seus dedos não se espremessem no estreito bico do calçado, a partir desse instante, eu era mero colonizado, ela colonizadora. Ainda que o calçado ficasse velho e deixasse de existir, sem restrições eu deveria aprender a sua língua, os seus costumes, a sua cultura, os seus alimentos, as suas abundâncias e as suas carências.
Chegamos ao bar. Era cedo ainda. Saio pouco e por isso não reconheci ninguém. O lugar não estava lotado.
- No carro é fácil. Quero aqui.
Hesitei.
- Se em algum outro momento hesitar, como agora, eu parto. E levo tudo o que acabou de me dar.
Abaixei-me e coloquei-me a fazer o que pedia. Enfiou-me o salto na boca, que chupei como se fosse um doce.
Preferi não olhar a reação das poucas pessoas que ali estavam.
- Ótimo - disse ela. E levantou-me com dois dedos em meu queixo.
Pedimos as bebidas, conversamos sobre diversas coisas, como se nada tivesse acontecido. Não importava agora. Eu me sentia bem. Ficamos só mais um tempo ali. Não esperávamos ninguém. Na verdade, ela só nos levou ali para fazer aquilo.
Dirigi para minha casa.
- Por que está indo para sua casa?
Era o que eu imaginava que ela queria.
- Vamos para a minha casa.
Subiu as escadas na minha frente, como a me arrastar e a adestrar o meu desejo. Abriu a porta e puxou-me pela mão. Na sala, segurou com força meu pescoço por trás, como se fosse me beijar, mas fez com que eu me ajoelhasse no tapete. Ficou à minha frente e afastou as pernas. Ergueu a saia e puxou-me em sua direção. A certa altura, sentou-se no sofá e envolveu meu corpo com aquelas botas. Forçando as pernas, apertava meu rosto contra si e deslizava com prazer em minha cara, sem ligar para o sentido daquilo. Ao contrário, parecia querer mais caos.
Finalmente, fez com que eu me deitasse no tapete e ficou sobre mim, as mãos apoiadas atrás, as solas das botas na minha cara.
- Não goze. Você é meu - disse ela.
E gozou.
Eu não.
No dia seguinte, acordei, vesti minha roupa. Depois, com carinho, a acordei também para tomarmos café. É engraçado como os domingos de sol são bons, mas não combinam com certas noites, certos tipos de calçado.
29 de dezembro de 2005

