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Padaria, palavras, ejaculações precoces

O banheiro diz tudo sobre a higiene das cozinhas das lanchonetes e padarias. Nesse quesito, a Pote de Mel é imbatível. Não cheguei a perceber porém a decepção da garota ao saber que tomava a maior parte dos meus cafés da manhã naquele lugar. Sempre espero um pouco mais de refinamento em minhas parceiras, manifesto em atitudes despojadas como fazer o desjejum na padoca. E, por isso, o desdém para um dos meus lugares preferidos na cidade de Curitiba ficou para mim oculto naquela ocasião.

As cadeiras de plástico, as mesas de fórmica, o café servido, como eu gosto, em copo americano nada têm de sofisticado. De fato, pouca coisa ali combinava com aqueles cabelos loiros bem cuidados, aqueles olhos azuis luminosos, aquela pele de seda, a roupa involuntariamente cara, aquele sorriso belo e estudado. Não tinha como dar certo. Eu devia ter visto naquele exato dia. Alguém que não simpatiza com a minha primeira e preferida refeição do dia de início retirou-se de vontade própria do meu convívio.

Palavras, palavras, palavras
O verbo sofisticar e seus derivados - advindos de conjugações, gerúndios, particípios e quetais - não têm na verdade uma conotação positiva. É fácil perceber que a palavra tem a mesma origem helênica de sofista. Os sofistas, como até um acadêmico de Comunicação Social deve saber, eram aqueles gregos da antigüidade que através do domínio das palavras e da argumentação conseguiam provar que vacas voavam, que o PT daria jeito no Brasil e coisas do gênero. Eram, portanto, em sua fina técnica de dar ares de verdade a mentiras, filósofos do mal. Isso para falar em uma linguagem simples e grosseira, para que os tais acadêmicos, fãs de Star War, entendam e para que não nos alonguemos demais nesse item. Logo, classificar algo como sofisticado equivale a dizer que um pedaço de metal enferrujado levou uma fina camada de uma vulgar tinta dourada. Prefira sempre as palavras refinado ou requintado. Elas deixarão seu texto muito mais sofisticado.

O copo
Tento hoje lembrar como ela segurou o copo com o café. Para falar bem a verdade, mal recordo se ela me acompanhou na refeição. No entanto, tenho certeza de que ela estava feliz por estar ali ao meu lado. Isso não posso negar. Mas talvez estivesse um pouco decepcionada. As pessoas não se decepcionam por maldade, mas porque têm convicções, expectativas, sonhos. Nada de errado em se decepcionar. Nos decepcionamos pelos menos uma dezena de vezes todos os dias, algumas vezes de forma repetitiva e até sem percebermos, tamanho nosso hábito. A decepção é uma espécie de chão. Ele existe, mas serve para andarmos por sobre ele. Ao levar o copo americano com aquele café cotidiano aos lábios eu poderia ter dito algo como:

- Quero te decepcionar. Não sou um deus, não sou um príncipe, não sou Peter Parker, sou um homem. Bem comum, que se alimenta com as pessoas que vêm ao hospital que há aqui perto. Quero te decepcionar diversas vezes ainda, quero ser a parcela de realidade que entra por seus olhos azuis. Sou carne. Comei e bebei. Segurai com as duas mãos. Devora-me com a volúpia dos famintos e dos decepcionados.

Ela, por sua vez, decepcionou-me apenas uma única ocasião.

A minha decepção
Até por volta dos 19 anos, as mulheres têm ejaculação precoce emocional. Assim como a ejaculação precoce sexual dos machos da espécie, esse distúrbio tende a passar com a idade ou, se não assim, com algum tipo de tratamento. Elas estão loucas para amar. Amar alguém, alguma coisa. Amar, embora não saibam muito bem o que é isso. Como todo o resto da humanidade.

São capazes de dizer que amam para, no segundo seguinte, dizer que estavam apenas - apenas - apaixonadas. E, para no outro segundo, falar:

- Preciso de um tempo para mim - uma das dez frases mais canalhas para se terminar um relacionamento ao lado de "o problema não é você, sou eu" e "vamos ser amigos".

Eu soube que quando o homem goza muito rápido a reação de uma mulher, mais ou menos preparada para certos fatos agourentos do sexo, pode ser de várias naturezas. Ela pode ficar com pena, raiva, chorar, arrepender-se, nunca mais querer nada com o sujeito, culpá-lo e até mesmo sentir-se culpada, arrependida por ter se metido naqueles lençóis.

Baseado nisso, vamos a um raciocínio simplório e inútil. O senso comum nos diz que os homens são mais sexuais e as mulheres mais emocionais. Muito bem, há bastante de inverdade nisso, assim como há muito de factual. A questão é que muitos de nós homens - a exemplo de algumas mulheres que têm um potencial erógeno muito grande ainda a ser por elas adestrado - temos emoções formidáveis ainda por serem aprendidas e domesticadas. Então não estamos preparados para reagir positivamente à ejaculação precoce emocional das mulheres mais jovens cujo coração, de uma hora para outra, encerra as atividades, vira para o lado e dorme. Não sem antes dizer:

- Preciso de um tempo para mim.

E que, antes que você responda com um aflito "como assim?", estará a roncar languidamente, metáfora que traduziremos como uma inexplicável indiferença ao seu sofrimento.

Mas a decepção não foi exatamente essa. Constituiu-se mais sutil. Creio, no entanto, que minha linha de raciocínio, por conta do tempo passado, da emoção envolvida e da falibilidade de meu julgamento, começa a se tornar por demais sofisticada. Se alguém se ofende com ele, por favor, que fique a vontade para rir, criticar ou pisar em cima. Obrigado.

A palavra formidável
A palavra formidável é outra usada de forma errada atualmente. Basta olhar em qualquer dicionário decente. Estará lá alguma definição que a liga a uma idéia de monstruosidade em um sentido gigantesco. Assim, quando quiser se divertir usea-a da seguinte forma:

- O que achou de fulano?

- Que pessoa formidável, não?!

Brinque com o vocabulário e faça amigos.

O orgasmo fingido
Cito o sexólogo Andreas Moriarty:

"Os homens contemporâneos têm como uma de suas maiores preocupações o orgasmo feminino. As mulheres contam diversas histórias de homens que pedem desculpas se, por acaso, eles não conseguiram levá-las ao clímax como se eles, agora, fossem os únicos responsáveis para que tal aconteça e como se esses espasmos, que duram segundos, fossem parte imprescindível da sexualidade. Nesse contexto, macho e fêmea estariam aleijados sem eles, mesmo os dois fazendo parte de uma espécie que não faz uso da genitália exclusivamente para a propagação dos gametas. Jamais ocupei minha mente e meu corpo em excesso com tal detalhe. Procuro, no entanto, que a coisa toda seja interessante no ato sexual e o segundo seguinte seja a benfazeja conseqüência do anterior. Se no meio do caminho a parceira tiver um orgasmo, tanto melhor. Daí minha ausência de preocupação sobre o fingimento ou não do, por assim dizer, ápice sexual. O sexo deve ser inteiro divertido, mesmo sem o clímax."

Pessoalmente, a única sobre a qual me ocorreu a possibilidade de fingimento do orgasmo foi ela. Sempre quis me agradar de alguma forma, fosse repetindo alguma frase que eu gostava de ouvir saindo por seus lábios, fosse - e isso é apenas suposição de uma mente raramente paranóica - fingindo.

Observação histórica e léxica
Usar a palavra clímax pode dar a idéia errada de que o orgasmo é o ponto alto do ato sexual ao mesmo tempo em que se aproxima de um vocabulário por demais científico e asséptico a que pertencem palavras como coito, cópula, pênis e vagina. Não use a palavra clímax de maneira nenhuma. Mesmo porque, há uns 20 anos, clímax era marca de uma geladeira.

De volta à padoca
Na padaria, ela se esforçou em tentar me amar. Mas já não era ela. Era uma decepção tomando forma daquelas tempestades que caem de uma vez só, arrancam pedaços das casas e levam lembranças embora para sempre.

- Preciso de um tempo para mim.

Foi o que ela disse quando a tempestade caiu, o chão faltou e minha voz não mais se ouviu na trovoada.

10 de junho de 2004

tem razão, não existe incongruência maior do que uma geladeira ter um nome assim. elas são naturalmente frias.

Por: Benito | fevereiro 16, 2005 03:33 PM

¨¨¨

se bem q já imaginou que comercial excelente? "As outras geladeiras não chegam nem perto de um clímax"

Por: Benito | fevereiro 16, 2005 03:36 PM

¨¨¨

Benito,

... esse comercial sim seria uma Brastemp! Tá bom. Não teve graça... rs

Abraços!

Por: Alessandro Martins | fevereiro 16, 2005 03:46 PM

¨¨¨

Eu já tive tantas ejaculações precoces... já atuei tanto como a noiva em fuga...

fiquei o tempo todo me perguntando durante o texto... será que ela lê?

Por: Alicia | fevereiro 16, 2005 07:53 PM

¨¨¨

Alicia,

na verdade, a esta altura nem importa se ela lê ou não. Agora ela se tornou mero material para textos, algo abstrato. Nunca imaginei que eu mesmo pudesse ter descartado tão facilmente alguém de meus sentimentos... nem sei se isso é bom ou ruim.

Por: Alessandro Martins | fevereiro 16, 2005 08:32 PM

¨¨¨

Este comentário não se relaciana ao texto da ejaculação precose, mas com o último das "correspondências". Acho que você tem uma razão ainda mais profundo do que deixa transparecer sobre a história de se inventar um amor, concretizar um amor em coisa amada, pra sentir o amor abstrato primeiro.
Meu amigo, no fundo, e quase sempre bem menos no fundo do que se queira, acho que isto nem é meu, se não me engano, sou péssimo em citar, foi Santo Agostinho, ou São Tomaz de Aquino, um desses culpadaos da minha culpa católica, que perguntou qualquer coisa como "o que eu amo quando amo deus?" Não sei, ou não me lembro se há uma resposta certa pra esta pergunta, mas se nos apropriarmos da forma substituindo Deus, pelo que quer que seja que agente ame, pra que a pergunta soe, o que eu amo quando eu amo? ou o que se ama quando se ama? me parece que amamos sempre a nossa própria falta de jeito de dar conta de nos deixarmos felizes.A mim, sempre pareceu, que quando eu amo eu amo uma possibilidade qualquer de me tornar mais confortável em me estar por aí, fumando um cigarro, tomando um conhaque ou satisfazendo as necessidades forçosas da natureza humana, em uma companhia que me agrade, Seja por que eu goste de sardas, e ela tenha sardas, ou porque seu cabelo curto corresponda a uma idéia de que mulheres de cabelos curtos têm mais personalidade. Só isto, mais nada. Quando eu amo eu amo a possibildade de eu ser um ser humano melhor,mesmo que a minha idéia de bom ser humano não seja a idéia corrente. A coisa que eu amo é só um símbulo. Uma casca quase inesistente sem mim, que eu enchi com as minhas próprias espectativas. Pode ser que seja assim. Pode ser que eu estaja pensando que você seja psicólogo e que minhas elocubraçôes lhe interessem, não faz mal é só uma teoria. No mais, sem muitos mais, até mais.
ps: até que os textos do tal moleque não são ruins, ele já tinha umas idéias bem boas então.

Por: renato terrazul | fevereiro 17, 2005 01:25 AM

¨¨¨

Caro Renato,

sobre isso, Carlos Drummond de Andrade fala melhor que eu:

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Abraços!

Por: Alessandro Martins | fevereiro 17, 2005 10:35 AM

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