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Existem duas Cracatoas. Ou Krakatoas.
Eu poderia contar a história de Krakatoa, escrita com k. Aquela que um dia um menino conheceu pela tevê em um sábado pela manhã ao lado de seu pai, no programa Cosmos, de Carl Sagan.
Também poderia falar de Cracatoa, grafada com c. Essa veio depois.
A Krakatoa, com k é, ou era, uma pequena ilha com um grande vulcão, na Indonésia. Um dia qualquer de 1883 explodiu, desapareceu do mapa. Deixou 36 mil mortos. Houve relatos de pessoas que ouviram o estrondo a 4.000 quilômetros de distância, na Austrália. Ondas colossais se ergueram, varreram e mataram tudo o que encontraram pela frente. Destroços foram atirados a 30 mil metros de altura.
A grande atividade vulcânica local fez com que aos poucos, como os geólogos supõem ter acontecido antes, uma nova formação rochosa surgisse no lugar do cataclismo. O que há hoje ali é uma nova ilha. Chama-se Anak Krakata, algo como a filha de Krakatoa. A presença de plantas, animais, insetos e demais manisfestações biológicas demonstra o ímpeto com que a semente da vida se propaga ao mesmo tempo em que ignora que daqui a poucos séculos Anak Krakata novamente explodirá.
Não foi preciso muito tempo para que isso começasse a acontecer. Relatos de um biólogo, 50 anos depois do desastre, deram conta de uma sutil presença no que, então, era apenas rocha estéril.
Uma aranha.
Das bem pequenininhas.
E ela trabalhava em sua teia. O biólogo ignorou um pouco sua ciência, que lhe diria que fazer teias estava na programação genética daquele aracnídeo, e indagou-se sobre o que ela pensava em agarrar naquele terreno árido no meio do oceano, onde, ainda que pequenina, era a única soberana e também, provavelmente, a solitária moradora. Talvez o cientista tenha aproveitado-se da própria solidão para dirigir-se em voz alta para ela.
Mas o que você pensa que está fazendo?
Claro, a aranha não respondeu. Continuou a fazer sua teia. Ninguém sabe até hoje como chegou ali. Ninguém sabe se ela, afinal, conseguiu alguma presa ou se morreu de fome. Apenas sabe-se que ela tinha algo a fazer e, portanto, fazia. Como se soubesse que a essência da teia não está na vítima a ela destinada, mas nos próprios fios e no visgo que a compõem. Vejo nisso ação desinteressada.
Mas Cracatoa, com c. Voltemos a ela.
Essa ilha, se assim podemos chamá-la, nasce exatamente nesse momento em que esse menino de sete anos de idade está sentado ao lado desse homem, a assistir o programa de Carl Sagan. O garoto acha que o pai é o homem mais inteligente do mundo, pois lhe explica as coisas de um jeito que nem o astrônomo da Nasa consegue. Falamos agora de um meio de comunicação que talvez ultrapasse as formas mais densas da linguagem como a fala e as imagens.
Ambos, o menino e o homem ficam espantados com as coisas que são relatadas na tevê. Uma ilha explodiu. Milhares morreram. O barulho foi ouvido a milhares de milhas. A palavra Cracatoa, portanto, para ambos passou a ser sinônimo, se não de tragédia, ao menos de acontecimentos grandiosos. Aqueles maiores do que a cabeça da gente pode comportar.
Como um quaquilhão, por exemplo.
O menino cresce e vira homem. O homem cresce e torna-se mais homem ainda. Ambos continuam pai e filho, como é de costume. O homem que era menino sabe agora que o pai não é o sujeito mais inteligente do mundo, mas também sabe que ele não precisa ser para amá-lo. O homem que agora é ainda mais homem sabe que o filho não vai se tornar cientista da Nasa nem vai perpetuar o nome ao longo das décadas. Mas, da mesma forma, sabe que isso é desnecessário para que os laços entre os dois sejam inquebráveis.
Mas, no meio disso tudo, há uma história de um prédio que o garoto um dia sonhou construir onde colocaria toda a sua família e seus amigos, para que sempre estivessem próximos. É claro que ninguém nunca fez ou conseguiu fazer tal coisa. Cracatoa é um pouco isso. É uma ilha onde cabem os amigos.
Nela, a vida cresce forte. Não se sabe exatamente onde fica, de onde veio e aonde vai. Só se encontram vestígios de sua passagem. Os cientistas, intrigados, sem saber que fim ela teve, se explodiu ou afundou ou zarpou, preferem dizer que Cracatoa simplesmente sumiu, sem apostar os seus diplomas. Não se arriscam a ser exatos. Desconfiam, no entanto, que tudo ali é intenso, dado que seus vestígios o são. Trata-se de um lugar em que os puros e os lascivos convivem em paz. Pois há sentimento no imaculado, mas há também sentir no que deseja com a carne pulsante.
Para Cracatoa nascer do nada - isso eles, os cientistas, não sabem - basta uma microscópica centelha. Apenas.
Mas o que é isso sobre meu teclado? Uma aranha?
Sim, das pequeninas. |