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      <title>Carpinejar</title>
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      <language>en-us</language>
      <copyright>Copyright 2007</copyright>
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         <title>Diabetes</title>
         <description><![CDATA[<p>O que absorvo vira açúcar. O que recuso vira açúcar.</p>

<p>A massa vira açúcar, o trigo vira açúcar, o arroz vira açúcar. Os livros que não folheei viram açúcar, os livros que não escrevi viram açúcar.</p>

<p>Meu sangue não me lê direito. Apressado. Salta as páginas. Confunde tudo em açúcar.</p>

<p>As formigas casaram com as abelhas em meu sangue. Procriaram asas e ferrão. Meu sangue ficou cego pela boca.</p>

<p>Não é a brandura do açúcar, é sua agressividade secreta. Não é o branco do açúcar, são as sombras misturadas no sopro.</p>

<p>Não é o açúcar amistoso, o açúcar que completa, é o açúcar que desfalca, faminto.</p>

<p>Não se tira o açúcar depois de posto. O açúcar se acumula e me espera.</p>

<p>É o açúcar árabe. O açúcar cigano. O açúcar ancestral. Caravelas e caravanas de açúcar chegando.</p>

<p>Pedi duas colheres no café. Vieram meus olhos inteiros de açúcar.</p>

<p>Os dentes viram açúcar. A língua, os ossos do queixo. O açúcar me morde, me lambe, me mantém preso em sua quietude, inchando os pés e as mãos.</p>

<p>O açúcar me devora. Me empresta para a neblina.</p>

<p>O açúcar é a infância que não mais terei.</p>

<p>O açúcar me roubou os doces de meu aniversário.</p>

<p>As passagens de ônibus viram açúcar. Os óculos grossos. As camisas listradas. Os bolsos dos casacos. As bermudas folgadas. O escritório vira açúcar. O ar. O cheiro de minha mulher. As árvores do quintal. O suor. Os canhotos das contas.</p>

<p>Os latidos do cão viram açúcar. Os gatos na porta. Os ganchos da rede. As lâmpadas de insetos. A chuva verde. Os amores correspondidos. O ressentimento dos filhos. O perdão da água.</p>

<p>O mar de bruços vira açúcar, as cordas do violão viram açúcar, a voz de minha mãe vira açúcar. As noites que demoram em fugir. Os desenhos dos azulejos. Os chinelos velhos.</p>

<p>A irritação caminha na pele, imitando os pêlos. As manchas nervosas. As manchas atômicas. As manchas atônitas de mapas.</p>

<p>O açúcar amarra meus sapatos. Costura os cadarços azuis e verdes. E me põe a andar na areia movediça do açúcar.</p>

<p>As veias são visitadas toda a manhã. E meu corpo manda um telegrama para me avisar de que estou vivo. </p>]]></description>
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         <pubDate>Thu, 25 Jan 2007 11:40:56 -0300</pubDate>
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         <title>Mulher-vítima</title>
         <description><![CDATA[<p>Não tenho nada contra mulheres arrogantes, pretensiosas, arrivistas, carreiristas, fatais. Não me importo. O sadismo não me incomoda, expressa vontade e determinação, ainda que insuportavelmente exageradas.</p>

<p>O que me provoca alergia é a mulher-vítima (assim como existe o homem-vítima), a que se considera injustiçada por antecipação. Vítima do mundo, de si, que conspira contra qualquer boa notícia, que desconfia do otimismo e se empenha para a tragédia. Ela não lutará pelo seu talento, vai logo se desculpar ou esperar que tudo fique igual.</p>

<p>Será extremista: ou é como ela quer ou não vale. Não aceita gradações, modulações, intervalos. Não respeita meio-termos, demora, paciência. Carrega sua verdade para todas as mentiras. No primeiro confronto com os pais, replica: "não pedi para nascer". Na primeira resistência: "nada funciona comigo". Na discussão de casal: "eu não o mereço". Na primeira celebração: "não sei por que você me escolheu". No primeiro filho: "ele não se parece comigo".</p>

<p>A mulher-vítima se defendeu do que podia na infância. Agora nem a infância a acalma. É vingativa. Só que não com os outros. Renuncia e abdica de sua própria história para provar que tinha razão.</p>

<p>Ela se enxerga como a última das criaturas. Aliás, a penúltima das criaturas, pois se lembrará das baratas ao pensar nisso. Não seria capaz de casar consigo mesma. Não que não seja bonita, inteligente, sensível. É, na maioria das vezes. Mas não suporta a idéia de fracassar e fracassa na véspera por não controlar a ansiedade. Não que tenha medo de fracassar, esse é o problema: tem certeza de fracassar. A mulher vítima tropeça já avisando como vai cair. Faz a derrota premeditada. Não economiza água para contar os dramas, e toma os dramas dos outros como seus. Se ele usasse todo o discurso quando se lamenta para dar certo, não haveria concorrência.</p>

<p>A mulher-vítima não desabafa, chora antes. Em algum momento, não foi vítima. Em algum momento, se sentiu traída e não trocou de papel.</p>

<p>A mulher-vítima se isola, acha que ninguém entenderá seu sofrimento. Não permite que sua angústia converse com estranhos. Ou que sua alegria tenha amigos. A mulher-vítima é uma mãe que não deixa o corpo sair dessa encarnação.</p>

<p>É como o fogo, começa uma história e não consegue terminar.</p>

<p>Será vítima do casamento, será vítima da falta de oportunidade, será vítima dos filhos, será vítima das contas. Ela não reage, ela concorda quando está apanhando das dificuldades - até ajuda a bater.</p>

<p>A mulher-vítima não muda, aguarda que o mundo mude por ela. É triste o jeito que ela se trata, ou o jeito que ela não se trata.</p>

<p>Fui criado por uma mulher excepcional, que não precisava de provas para ser percebida. Apesar de todas as qualidades, era uma mulher-vítima. A mulher-vítima não apaga suas virtudes, ela se esconde delas.</p>

<p>Não cansava de explicar aos filhos que foi abandonada pelo marido. Nunca a ouvi dizer algo de bom dele. Tudo que era bom dele vinha dela e do tempo que viveram juntos. Nunca se casou de novo para contrariar o passado ou absolvê-lo.</p>

<p>A mulher-vítima é romântica. Pelo motivo errado. Não trai suas dores e mágoas pelo orgulho de ter sofrido sozinha.</p>]]></description>
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         <pubDate>Mon, 15 Jan 2007 16:40:22 -0300</pubDate>
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         <title>A infância por perto</title>
         <description><![CDATA[<p>Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância.</p>

<p>A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos.</p>

<p>É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa.</p>

<p>A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu.</p>

<p>O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte.</p>

<p>Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.</p>

<p>Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo.</p>

<p>Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado.</p>

<p>E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. </p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/carpinejar/2007/01/a_infancia_por_perto.php</link>
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         <pubDate>Sun, 07 Jan 2007 07:56:18 -0300</pubDate>
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         <title>Minha filha completa 13 anos</title>
         <description><![CDATA[<p>Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos?</p>

<p>Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas.</p>

<p>Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus.</p>

<p>Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.</p>

<p>De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.</p>

<p>Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo.</p>

<p>Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias.</p>

<p>Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar.</p>

<p>Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade. Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa.</p>

<p>Minha filha agora me põe a envelhecer. </p>]]></description>
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         <pubDate>Thu, 28 Dec 2006 10:07:29 -0300</pubDate>
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         <title>Campeão do mundo</title>
         <description><![CDATA[<p>Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.</p>

<p>Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata.</p>

<p>Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada.</p>

<p>Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.</p>

<p>Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja.</p>

<p>Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento.</p>

<p>No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento. </p>]]></description>
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         <pubDate>Thu, 21 Dec 2006 07:50:37 -0300</pubDate>
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         <title>Falta de tempo</title>
         <description><![CDATA[<p>Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento.</p>

<p>Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...</p>

<p>Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda.</p>

<p>Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também.</p>

<p>Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.</p>

<p>Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo.</p>]]></description>
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         <pubDate>Fri, 15 Dec 2006 11:49:13 -0300</pubDate>
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         <title>Franqueza para machucar</title>
         <description><![CDATA[<p>Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça.</p>

<p>Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades.</p>

<p>Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa.</p>

<p>Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise.</p>

<p>Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça.</p>

<p>Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte.</p>

<p>Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo.</p>

<p>Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado.</p>

<p>Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque.</p>

<p>Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores.</p>

<p>Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira.</p>

<p>Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola.</p>

<p>Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos:<br />
- Ainda tem uma barriguinha.</p>

<p>Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão.</p>

<p>Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />
- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.<br />
- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.<br />
A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras.</p>

<p>Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar.</p>

<p>Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade.</p>

<p>Intimidade é gentileza. </p>]]></description>
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         <pubDate>Fri, 08 Dec 2006 08:57:56 -0300</pubDate>
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         <title>Uma ave-maria</title>
         <description><![CDATA[<p>Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer.</p>

<p>No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de Poesia havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar.</p>

<p>Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros.</p>

<p>Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.</p>]]></description>
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         <pubDate>Sat, 02 Dec 2006 15:08:16 -0300</pubDate>
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            <item>
         <title>Desabafo</title>
         <description><![CDATA[<p>Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?</p>

<p>Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir.</p>

<p>É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.</p>

<p>Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro.</p>

<p>Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu.</p>

<p>Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.</p>

<p>Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto.</p>

<p>Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele.</p>

<p>O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo.</p>

<p>Amor nunca dirá: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos.</p>

<p>Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.</p>

<p>Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor. É uma maneira certa de nunca chegar a ele. </p>]]></description>
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         <pubDate>Thu, 23 Nov 2006 17:18:48 -0300</pubDate>
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            <item>
         <title>Um coque grisalho para minha vida</title>
         <description><![CDATA[<p>Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores.</p>

<p>Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro.</p>

<p>Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas.</p>

<p>Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas.</p>

<p>Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente.</p>

<p>As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa.</p>

<p>Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. </p>]]></description>
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         <pubDate>Fri, 17 Nov 2006 14:17:59 -0300</pubDate>
      </item>
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         <title>Quando não se espera</title>
         <description><![CDATA[<p>Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido.</p>

<p>Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda.</p>

<p>Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar.</p>

<p>Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra.</p>

<p>A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha.</p>

<p>Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro.</p>

<p>Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele.</p>

<p>A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera. </p>]]></description>
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         <pubDate>Fri, 10 Nov 2006 10:55:32 -0300</pubDate>
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         <title>Uma vez no restaurante</title>
         <description><![CDATA[<p>A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho.</p>

<p>Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios.</p>

<p>A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado.</p>

<p>O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar.</p>

<p>Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta.</p>

<p>Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam.</p>

<p>O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.</p>

<p>Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.</p>

<p>No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa.</p>

<p>Saiu ralhando:</p>

<p>- Não mexe mais em nada!</p>

<p>Ingenuidade crer no silêncio:</p>

<p>- Pai, o que eu vou fazer com os braços?<br />
- Que braços?<br />
- Não posso mexer em nada.</p>

<p>A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas.</p>

<p>- Meu pai é malabarista.<br />
- Meu pai nunca erra.<br />
- Meu pai é famoso, todos chamam ele.</p>

<p>A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto.</p>

<p>- Por favor, vou perder o emprego.</p>

<p>O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras.</p>

<p>- Tá bom tá bom, depois a gente conversa.</p>

<p>O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos.</p>

<p>A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas.</p>

<p>A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:</p>

<p>- Viu? Sou que nem meu pai...</p>

<p>Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. </p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/carpinejar/2006/11/uma_vez_no_restaurante.php</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Thu, 02 Nov 2006 11:23:49 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Súbita compreensão</title>
         <description><![CDATA[<p>Só quero que seja feliz. Ele usa todo o céu da boca para a declaração</p>

<p>Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade?</p>

<p>Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.</p>

<p>Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado.</p>

<p>Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?</p>

<p>A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina.</p>

<p>O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto.</p>

<p>A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental.</p>

<p>O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados.</p>

<p>Só quero que seja feliz deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". Só quero que seja feliz deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". Só quero que seja feliz é uma ordem de despejo entregue com educação.</p>

<p>Nunca somos felizes pelos outros.</p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/carpinejar/2006/10/subita_compreensao.php</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Thu, 26 Oct 2006 10:37:01 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Camisa azul-grená</title>
         <description><![CDATA[<p>Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia.</p>

<p>Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las.</p>

<p>Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa.</p>

<p>Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes.</p>

<p>De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários.</p>

<p>Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda.</p>

<p>Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio.</p>

<p>Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.</p>

<p>O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido.</p>

<p>Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.</p>

<p>Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. </p>]]></description>
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         <pubDate>Sun, 22 Oct 2006 09:06:15 -0300</pubDate>
      </item>
            <item>
         <title>Tá acabando!</title>
         <description><![CDATA[<p>No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.</p>

<p>Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"? Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria.</p>

<p>O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.</p>

<p>Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos.</p>

<p>Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto.</p>

<p>Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua.</p>

<p>Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro.</p>

<p>O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem orelhão, minha vida tem sido perigosamente precipitada. </p>]]></description>
         <link>http://www.cracatoa.com.br/2005/carpinejar/2006/10/ta_acabando.php</link>
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         <pubDate>Thu, 12 Oct 2006 19:12:47 -0300</pubDate>
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