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Uma vez no restaurante

A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho.

Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios.

A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado.

O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar.

Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta.

Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam.

O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.

Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.

No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa.

Saiu ralhando:

- Não mexe mais em nada!

Ingenuidade crer no silêncio:

- Pai, o que eu vou fazer com os braços?
- Que braços?
- Não posso mexer em nada.

A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas.

- Meu pai é malabarista.
- Meu pai nunca erra.
- Meu pai é famoso, todos chamam ele.

A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto.

- Por favor, vou perder o emprego.

O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras.

- Tá bom tá bom, depois a gente conversa.

O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos.

A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas.

A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:

- Viu? Sou que nem meu pai...

Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor.

2 de November de 2006 | 11:23 AM

Pois é, o soco acertou em cheio, porém, e agora, como mensurar o estrago?
Abraços.

PS: Adorei...

Por: Ricardo | November 2, 2006 10:29 PM

 
 




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