Não ame um homem por compaixão. Não ame um homem porque ele ficou ao teu lado enquanto quem desejava ia. Não ame um homem para não ficar isolada. Não ame assim, sem amor, por uma segunda chance. Por tédio. Para passar o tempo. Por respeito. Para esperar acompanhada.
Tenha coragem de deixá-lo sozinho, de encarar a verdade. Não maltrate sua esperança. Não o torture com a promessa de que pode dar certo. Não dá certo o que não pode dar errado.
Ame para conhecer, não conheça para amar. O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele. O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno.
Não ame um homem porque ele foi leal, o único que a ouviu, a aconselhou, a compreendeu. Isso é amizade que pode estar no amor, mas não é amor. Amor tem mais pele do que osso. Osso se guarda na terra. Já a pele cheira-se com insistência para contrariar o esquecimento.
Não ame um homem por recompensa, pois ele aguardou que os outros fossem embora. O final de festa é cansaço.
Não ame um homem por caridade (sua ou dele). O corpo não é uma esmola.
Não ame um homem para dizer que os outros não prestam. Por vingança. Para mostrar o que é um homem.
Não ame por educação. Um homem amado desse jeito se sentirá menos homem no futuro. É rebaixar o homem. Acovardá-lo com atenuantes. É conter a ambição dos braços, a curiosidade das pernas.
Não ame um homem por acomodação. Perca a vida, mas não a chance do homem que procura.
Amor não se convence. Não se enraíza com argumentos. Não começa pela cautela. Amor é a falta de prevenção. Não se faz discutindo, amor se faz precisando.
Não ame um homem porque ele é o ideal e não a fará sofrer. Prevenir a dor é combater o que pode consolá-la. Não ame um homem pelo simples fato dele estar disponível e atender seus chamados com facilidade. Não ame por conveniência. Para se exibir. Para não pensar mais nisso.
Ame um homem que não nasceu de uma consolação, que não partiu de indicação dos amigos, que não seja a cara do seu pai. O que é melhor para você nem sempre é amor.
Ame um homem que seja apertado, como o jeans que se fecha apenas quando se deita.
Que seja natural como uma distração, que não seja uma distração.
Que seja Um homem brigado por dentro. Um homem duvidado, dividido. Um homem impossível. Posto sempre à prova.
Não ame um amor que não seja inteiramente seu homem.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
4 de August de 2006 | 12:29 PM


amores por caridade tornam-se patéticos quando vistos da ótica de amores de verdade... mas como é difícil perceber os amores de caridade quando estamos dentro da dinâmica deles... percebemos, mas fazemos questão de esconder de nós mesmos como estamos sendo injustos com a gente e com o ser "amado", utilizando a máscara de amor verdadeiro quando este nunca pode o ser.
Por: Lívia | August 7, 2006 10:22 AM
Perfeito.
Precisava ouvir exatamente isso.
Exatamente agora.
Thanks!
Por: Andressa | August 7, 2006 11:30 PM
:)
Por: Maíra. | August 8, 2006 12:17 AM
se tornou comum o amor por caridade, ou melhor, por carência.
lindo texto!
:*
Por: marie. | August 9, 2006 02:26 PM
simplesmente amei.
Por: Wal | August 9, 2006 05:06 PM
comovenTTTi!
Por: karen | August 9, 2006 05:14 PM
eu só queria entender melhor o significado de um "homem apertado", talvez pra ver se eu me entendo um pouco mais...
Por: William Hirayama | September 8, 2006 10:52 PM