home cracatoa quem faz making of imprensa souveniers links contato
 

Uma esperança semi-aberta

Para Caroline, que me inspirou.

Depois dos filhos, passei a adoecer de compaixão pelos sacos abertos de salgadinhos, dos abiscoitados, das bolachas. Antes, eu comia. A gula diminuiu com a paternidade. Hoje acredito que eles serão devorados na tarde seguinte e dou uma segunda chance. Não quero que estraguem e guardo. Há pouco para colocar em um pote, mas nem tão pouco para jogar fora. Estou parecendo minha mãe, esperançosa como as sobras do almoço.

Ao invés dos arames brancos e elásticos, fecho com prendedores. Mania esquisita: a cesta de vime virou um varal. Nada a reclamar se fosse temporário, mas não é. Criei, de modo involuntário, um purgatório na despensa. Um caldeirão de alimentos penados. As crianças abrem cada vez mais as novas embalagens e ninguém mexe nos antigos sacos, deduzindo que a quantidade é insuficiente para o entretenimento dos dentes. Montei um depósito de restos e apenas me flagrei disso quando começou a faltar prendedores para as roupas. A maioria estava desviada de sua função original e exercia bicos na cozinha.

Eu faço o mesmo - infelizmente - com os pensamentos de minha mulher. Acompanho uma idéia pela curiosidade, mastigo durante um período e deixo para o próximo dia que nunca chega. Não desejo perder, não tiro o olho, porém não desfruto até o fim. Não desperdiço e, ao mesmo tempo, não aproveito. Crio um cemitério de unhas na janela. Ela conta seu trabalho no almoço ou na janta e já a interrompo com outras distrações e não volto ao assunto. Não volto: maldito defeito do homem que se dedica a ir, não a regressar.

Não a escuto, sempre querendo a novidade. Desperto para as extravagâncias. Talvez o que mais a importe seja antigo e dito sem ênfase. Um estar ali, inteiro, descompromissado, sem fugas, sem pálpebras aéreas, sem bocas apressadas. Ultrapassar a monotonia pela dedicação.

O que a incomoda - e que ela não diz - é a facilidade em me mostrar atento para me desinteressar em seguida. Esqueço o que ela mencionou para fingir que me lembro e concordar no escuro.

A intenção em proteger os saquinhos não serve. Eles vão estragar como se estivessem abertos.

Para guardar, devo estar com o rosto de minha mulher permanentemente entre as mãos e não mais confiar em prendedores.

Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).

13 de July de 2006 | 09:15 AM

 
 




> Diabetes
> Mulher-vítima
> A infância por perto
> Minha filha completa 13 anos
> Campeão do mundo
> Falta de tempo
> Franqueza para machucar
> Uma ave-maria
> Desabafo
> Um coque grisalho para minha vida

+ mais
 



 


E-mail do seu amigo:


Seu e-mail:



 
 


Receba um aviso por e-mail quando esta coluna é atualizada.

Seu e-mail:

Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução do conteúdo do site, desde que os autores sejam consultados. Para uso comercial, consulte também os autores. As opiniões dos colaboradores e dos comentários não refletem necessariamente a opinião do Cracatoa Simplesmente Sumiu.