Jurei não escrever sobre futebol por enquanto. Mas devo. Preciso bater as costas para engolir o desgosto. Assim como já engoli meu próprio dente em uma briga na infância. Engoli meu dente como uma aspirina, sem água. A seco. A garganta agüentou.
Eu perdi muitas Copas: 74 foi a minha primeira. Ainda lembro de um jogador polonês Lato atravessando todo o campo sem marcação para fazer o gol e nos colocar em quarto lugar.
Rememoro 78, o Brasil não conheceu a derrota e o Peru levou seis quando poderia levar quatro. É inacreditável o que acontece nos bastidores.
A de 82 tornou-se a mais dolorida. Com dez anos, só querendo bater bola nos campinhos, guardo intacto o rosto do Falcão, as veias da testa de Falcão explodindo e comemorando o gol de empate que nos classificava. Um anjo de Leonardo da Vinci retocado pelo desespero de Munch. E, em seguida, a ruína da defesa. Rossi, Rossi, Rossi. Três vezes Rossi. Sócrates cabeceou um cruzamento no final que - por pouquinho - não entrou. Eu imaginei durante décadas a bola entrando e vencendo Dino. Décadas: no chuveiro, no carro, no supermercado, na escola, meus cabelos boiavam na reprise do que não houve, do que não deu. Encontrei Sócrates em uma choperia em Ribeirão Preto, vinte anos transcorrida a copa, e não consegui conversar. Observava sua testa com teimosia. Como se houvesse um hematoma, uma bolha, um caroço. Pensava unicamente na cabeçada que não entrou, o que seria sua trajetória depois da cabeçada, o que seria minha biografia com aquela vitória. O que uma bola sente no outro lado do mundo interfere em sua vida. Aquela vitória poderia ter me entusiasmado a beijar a menina que eu gostava na escola. Ela havia prometido um beijo se a seleção fosse à final.
A de 86 não tinha chance, França nos tirou nos pênaltis, até Zico errou e o goleiro Carlos tomou uma bola nas costas, após bater na trave, para estufar as redes. Muito azar na perícia. Em 90, caímos precoce, nas oitavas, nem senti o gostinho dos feriados.
As de 94, 98 e 2002, sou muito velho para lembrar e a alegria encurta as goleiras.
Voltei a contar com dez anos no sábado. Talvez porque tenha um filho, 4, e uma adolescente, 12. De repente, virei o filho do meio. E nem pude ficar triste na hora, nem chorei como antes. Nenhum sinal visível. Exercitei derrames em silêncio.
Vicente me animou: "agora iremos voltar a assistir o Inter". Mariana brincou com sua idade na próxima Copa: 16 anos... Quando os filhos consolam, fazendo o que deveria fazer, é que alguma coisa está errada comigo. Não me saía da cabeça a cobrança derradeira de falta de Ronaldinho Gaúcho. Estou no trabalho, estou em festas, não importa, recordo Ronaldinho batendo a falta e comemorando. Batendo a falta e empatando a partida no finalzinho. Hipnose exaustiva. Enquanto escrevo este texto, olho para o chão e a barreira anda para a frente. Minha memória só aceita a reversão do resultado. Empacou. Não deixo o lugar na frente da televisão.
O discernimento não é maior do que a ingenuidade.
Não vou dizer que merecíamos perder, não vou dizer que era melhor sair antes, que a seleção teve um plantel de mercenários, não vou culpar um ou outro, não tomarei uma posição intelectual a menosprezar o futebol e reduzi-lo a um esporte, não gritarei que a vida segue, que o ano começa, que agora é torcer para Portugal, não vou. O futebol é quando meus olhos são as minhas pernas. Não sei caminhar de outro jeito. O juiz ainda não apitou aquela cobrança de Ronaldinho.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
6 de July de 2006 | 08:39 AM


De 82, você guarda a mesma lembrança que eu. Como pode? Aquele gol do Falcão foi o gol da vitória. Como pode?
Por: Alessandro Martins | July 6, 2006 08:42 AM
bom... então eu digo para vc:
a culpa é de zagallo!!!!!!!!!!
pq ele não mexeu antes no time??
que ódio dessa copa do mundo... perder logo p França de novo? e ainda vê-los tirar tb Portugal?
naum... ngm merece....
pelo menos não foi a argentina!!!!
Por: mema | July 7, 2006 09:05 AM