Você está diferente, você está estranho, você ri de qualquer coisa, arruma brechas para escapar do trabalho. Todos dizem que você está amando. Não caía na cilada, não confirme a suspeita. Sei que é complicado não se envaidecer nessa hora.
É uma tentação, mas não aceite, ainda que feliz sexualmente, ainda que disposto, ainda que brincalhão, não significa que está amando. Amar não guarda parentesco com os seus traços. Não nasceu contigo, nasceu em ti.
Não devemos medir o amor pela nossa alegria. Mas pela alegria de quem nos acompanha. Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar. É falso confiar que a nossa felicidade é suficiente para se decretar o estado da paixão. Como é ilusório amar com a mesma independência do tempo que a gente não amava. A independência daquele período era desinteresse.
Quantos se enxergam felizes e se sentem resolvidos antes de trabalhar pelo amor? Amor é aceitar encomendas para dentro de casa.
Repare em sua mulher. Agora. Vê se ela está contente? Ela debruça em seus braços na cama? Ela conta tudinho o que pode se lembrar do trabalho? Ela esconde que comprou algumas roupas novas para aparecer de repente? Ela comenta um filme como se fosse parte dele? Ela usa sua gilete para pôr as pernas dela em seu rosto? Ela volta a falar do que esqueceu de lembrar? Ela telefona para perguntar se está tudo bem? Ela diz mais de uma vez como o filho é parecido com suas manias? Vê se ela está altiva mesmo cansada? Ela suspira como quem dá uma segunda chance para a janela? Ela provoca para que venha cobri-la de espantos e lábios? Ela segura sua mão quando a neblina se acumula no pára-brisa?
Vê. Vê você. Agora. Seu esforço de manhãzinha para não acordá-la, encardindo a ponta das meias para recolher suas roupas e sair contornando - sem escorregar - os travesseiros e chinelos no chão? Sempre tropeça e se apóia com o cotovelo logo nos joelhos dela. Vê seu cuidado em escolher os pratos menos pesados da cozinha para não provocar barulho na mesa? Sempre escapa uma colher na maldita hora. Vê sua ânsia em animá-la quando o serviço a puxou para baixo, de evocar piadas e lembranças que só os dois entendem? Amor é esforço de compreensão, a consciência de nunca mais estar sozinho nem para morrer.
O amor não estará em você, por mais que confie que parte de você, que é você. O amor estará nela. Ela é o amor, que você destruiria se estivesse contigo.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
20 de July de 2006 | 04:09 PM


Foda!
Por: Daniel Belarmino | July 21, 2006 12:26 PM
Algumas pessoas vêem, outras enxergam.
Fabrício vai além...
Por: Jack Daniels | July 22, 2006 05:51 PM
às vezes sinto falta disso tudo.
Por: Denise | July 26, 2006 05:46 PM
queria que ele morasse por aqui. quem sabe um dia. ;)
Por: marie. | July 29, 2006 12:05 AM
É, faz todo sentido.
Por: Fernanda | August 1, 2006 10:40 PM
Que lindo...
E nada mais lindo que as simples coisas do dia a dia né?
Temos mesmo que prestar atenção no outro, é nele que nos encontramos!
:*
Parabéns
Por: Barbarella | August 9, 2006 02:37 PM