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Trocado no hospital

Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração.

Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado.

Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo.

Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade.

Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado. Era a minha cara, entretanto, não era eu.

- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.

Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:

- Coitado, ele também foi trocado.

Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).

22 de June de 2006 | 09:06 AM

Muito bom!
Hahaha, o analfabetismo póstumo também me encomoda deveras!
É verdade, sempre duvidei ser mesmo filha dos meus pais, e sempre fui profundamente encorajada por meu irmão mais velho a pensar assim!! Mas com o tempo me convenci com minhas fotos de bebê e da barriga grande da minha mãe!
Eis o papel das tias e dos irmãos mais velhos!
Haha

Por: Karina | June 26, 2006 03:16 PM

 
 




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