Ansiava em subir numa paineira. Meu desejo irrealizado de telhado, mas ela tinha espinhos avantajados, que não davam para dobrar como os da roseira. Espinhos fortes, agudos, medievais. Observava a árvore na praça, como um órfão admira o pai de um colega ou como quem esconde da professora o atraso da mãe na saída da escola. Tocava-me a nostalgia do que nunca poderia fazer. A paineira, intransponível com suas pontas de lança. Os galhos muito acima da minha capacidade de encurtá-los.
Deixei esse sonho de lado, como muitos outros, sem mexer ou importuná-los, fingindo que não me conheciam. Ao empurrar meu filho no balanço, na mesma praça que freqüentava quando pequeno, assusto-me com a mobilidade de uma criança alçando justamente a paineira impossível. Não havia percebido, o que ela propôs foi simples: usava os espinhos como degraus. A paineira ficava mais fácil de subir, porque naturalmente apresentava os grampos do alpinista em sua crosta. A criança se elevava com ligeireza e alegria, ainda gritou de cima. Avistava um continente estranho.
Não havia insistido. Muito menos ensaiado vôos pelas cordas das mãos. Sondava somente o langor dos espinhos, concentrado na dor que eles poderiam me provocar, no ferimento que ainda não existia, nos joelhos esfolados que deveria levar para casa. Não cogitei os espinhos como os ombros que me conduziriam ao alto, como um modo de me proteger.
Uma amiga esperou três anos para que um amor se resolvesse por ela. Viveram juntos, se separaram. Faltava cumplicidade, não ser esquecida pelo seu olfato. Faltava que ele dissesse que não conseguiria ficar sem ela, que ao menos sentia saudades. Ela praguejou escondida, suportou as olheiras, encabulou meses de convívio, tentou ser forte, mudou de planos, pensou que enlouqueceria caso não se abrisse para alguém, não se abriu e enlouqueceu, arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria.
Na última semana, ela se reencontrou novamente com o ex. Num ônibus, entre passageiros que nada tinham com isso, ele finalmente declarou sua paixão e expressou todas as palavras que ela queria ouvir. Todas. Até aquelas que não ouviria, pois era vaidade demais imaginá-las. Perguntou inclusive se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela riu: "Sim, eu não mudei de perfume." Talvez tenha mudado de corpo, de perfume não. Ele riu, acreditou que ainda era tempo, que ela o aceitaria de volta.
Ela afastou os braços dele dos seus ombros. Com ternura. Uma ternura de quem soube avançar pelos espinhos e enxerga a vida da copa das árvores, com mais altura do que o vento. Com mais discernimento.
A paineira me ensinou a não temê-la.
Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
30 de June de 2006 | 09:11 AM


Uma honra mesmo!!!
Por: m. maltoni | July 3, 2006 01:19 PM
Taí uma coisa difícil de aceitar. Que se ele, ela te amasse ia perceber agora e não depois. que você ficou amando sozinha.
Por: Flávia | July 5, 2006 07:45 PM
nossa....
eh verdade. certas coisas para quem sofrem jamais volta do mesmo jeito, por mais que a gente tente se enganar...
experiência própria.
poucas pessoas são capazes de afastar nessa hora algo q sempre desejou... coragem e força dela!
lindo texto
"arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria."
Por: mema | July 7, 2006 08:52 AM
mas ainda dói. mesmo sendo amizade e não acontecer.
dói muito
Por: Alicia | July 8, 2006 09:52 PM
Não sei o que dizer...esse texto me tocou muito. Temos que aproveitar o Amor quando ele nos é oferecido, pois caso contrário pode ser tarde demais...
Mais um belo texto, Parabéns
Por: Carlinhos | July 10, 2006 10:49 PM