Para Lisiane
Eu tenho uma inclinação por sardas e cabelos ruivos. Mulheres com sardas costumam não gostar, é curioso.
Quando criança, uma amiga colava fita crepe no rosto e puxava acreditando que as sardas sairiam junto. Ela não respeitava as sardas, confundia com espinhas. Ficava furiosa com Deus, que pintou seu corpo sem permissão. Coloriu seus braços enquanto dormia no ventre. Abominava a idéia de ser diferente, tantos sinais de nascença como o número de estrelas. Sofria com brincadeiras alusivas à ferrugem.
Tanto que não usava dedos ou palitos de fósforo para aprender a contar na escola, mas as sardas. Enchia a tez de cremes da mãe para sarar daquilo que era uma virtude. Agredia as pintas como uma catapora, uma doença, uma tristeza de guitarra. Encabulada com os apelidos que poderia receber. Se um menino a observava com admiração, já tomava como crítica e virava o pescoço para não se machucar. Fugia de si, como se o véu fosse a própria face. Era uma muçulmana de sua timidez.
Enquanto ela queria tirar as sardas, desejava tê-las. A pele enxerga melhor com sardas. São os óculos naturais da pele. Fogo que levemente doura. Brasa singela que acomete as árvores e o crepúsculo no outono. Pão casado com a madeira.
As sardas são uma procissão da boca. Não retiram beleza, mas acentuam. Fazem qualquer rosto voar como os cabelos, subir como um vestido. Não deixam nenhum rosto brincar sozinho. São marcas de lábios das folhas. Uma chuva de folhas. O cheiro de alfazema das folhas.
O ouvido torna-se mais próximo das sobrancelhas, mais próximo do nariz, mais próximo do queixo. É possível acompanhar toda a vizinhança dos telhados. As sardas são balas de goma, o açúcar das balas de goma. Elas fazem o corpo rir mesmo quando está indisposto. Uma mulher com sardas tem jeito de praça na lomba. Eu só subia a lomba da rua porque tinha uma praça no meio do caminho para brincar e recuperar o fôlego. A praça sempre foi a véspera de minha casa. As sardas são a véspera do sol.
Um rosto com sardas, pode reparar, é bem iluminado. Não pela luz que entra, pela luz que já estava lá.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
8 de June de 2006 | 01:03 PM


estou lisongeada com esse texto.
sou assim: ruiva natural e sardas no rosto.
com um único diferencial, sempre as amei.
obrigada pelas palavras lindas, senti como se fosse a própria Lisiane.
beijos
Por: marina | June 8, 2006 07:28 PM
Realmente, meninas ruivinhas e com sardas não gostam muito de ser assim, não. Só conheço uma que gosta desde sempre. :]
Ficou uma fofura o texto.
Beijo.
Por: Islane | June 11, 2006 11:54 PM
Pela primeira vez me senti mais confortável com relação às minhas sardas... Tks!
Por: Monnica | June 12, 2006 10:06 AM
adorei!!!
Por: verdade vida | June 12, 2006 03:49 PM
eu estava muito triste, tenho 13 e axo k sou feia mas eu sou morena e tenho sardas
Por: cristiana | July 6, 2006 12:17 PM
Esse texto me consolou,só não tirará minha inferioridade perante a sociedade, poissou vitima desde a infância de preconceitos e gozações.Queria muito que isso mudasse, pois minha filha é igual a mim e não queria que ela sofresse ostraumas pelos que passei.
Por: maria, 29 anos | July 8, 2006 10:37 PM
Esse texto me consolou,só não tirará minha inferioridade perante a sociedade, poissou vitima desde a infância de preconceitos e gozações.Queria muito que isso mudasse, pois minha filha é igual a mim e não queria que ela sofresse ostraumas pelos que passei.
Por: maria, 29 anos | July 8, 2006 10:43 PM
Oi ,entao eu tenho sardas e nao sou ruivo sou loiro e eu morro de vergonha delas tenhop vergonha de conversa com uma menina olhando na cara e o q eu mais quero na minha vida é tira elas...queria alguma opiniao .....muito obrigado!
Por: kaio | September 10, 2006 03:48 PM
oi!!!! Tenho cabelos castanhos claros e sempre que olhei para o espelho vi sardas no meu rosto, contudo gosto delas e acho k me ficam muito bem... apesar de muitas raparigas sofrerem preconceitos e gozações na escola, eu nunca tive esses problemas.. aliás os meus colegas acham imensa piada às minhas sardas e elogiam. Elas dão-me um ar jovial, natural e "iluminado" como o autor assim diz.
Por: Nádia | September 12, 2006 04:49 PM
Lindo! Amei, tenho sardas e só bem há pouco tempo comecei a gostar delas.
Por: Vera | January 5, 2007 05:12 PM