Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular. Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados.
Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras.
Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido.
Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte.
Ao chegar em casa, abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra.
O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura.
Suas raízes são as asas.
Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
15 de June de 2006 | 12:50 PM


gaiola de flores....
o problema eh crescer demais e a gaiola ser pequena para nos suportar.
Por: marina | June 15, 2006 11:26 PM
roubei declaradamente seu título para uma série de fotos. depois te mostro quando for publicada.
Por: Alicia | August 2, 2006 04:51 PM