Você sempre vira as costas quando ainda estou falando. Eu me irrito com sua pressa em me ferir. Despeja mentiras e sai apressada do veneno. Fico sozinho com a minha ansiedade em fazer as pazes.
Provoca para que corra atrás. Corro porque não suporto o vento parando meus ouvidos.
Sobe meu sangue, encrespa as veias. Eu levanto a voz para me defender e já diz que estou gritando. Não fiz nada senão erguer a voz para o tom da sua, para que me escute e não somente seu próprio apelo.
Tanto faz, agora avisa que estou gritando. Grita que estou gritando.
Sua teimosia impede arrependimentos. Agora começou a briga e não voltará atrás, não mostrará humildade para desistir, não aceita recuar, não pedirá desculpa. Seu orgulho me pressiona, tenta me convencer a todo custo que tem razão.
Vai aguardar que eu diga alguma ofensa para inverter os papéis e denunciar que a ofendi. Fareja a insanidade. Seus olhos zonzos, inofensivos, pescam meus desaforos ao longe. Enganei-me com a doçura. Fixa a minha boca para afastar o beijo, espera o cardume surgir da espuma da raiva. Contenho-me, busco diminuir o ritmo, usar a calma de adulto que treinei na infância.
Não descubro o que está querendo. Não a entendo, permanecia quieto e calmo esperando que voltasse do trabalho: os cabelos ainda se acostumando à noite. Chegou disposta a desalinhar o quarto, cobrando que não atendi o telefonema, mas sequer o ouvi pelo barulho do ar-condicionado.
Passa a me xingar para que eu retribua. Dá mais comida aos peixes da minha boca, mais isca, mais ração. Puxo a corda, enganado pela fome. Nossos vizinhos já conhecem o nosso relógio biológico. Não se assustam com os trincos no chão, com sua pontualidade em testar mais uma vez minha paciência.
A briga não oferece sequer um motivo, teve que arrumar desesperadamente um motivo durante a briga para se justificar. Quando percebe que perderá a disputa, quando se confunde e não responde, inicia seu cinismo. Ameaça procurar um apartamento na próxima semana. Diz que não vai se importar mais comigo. Você é extremista: se não é do seu jeito não será de nenhum.
Pode ficar com razão, a razão nada entende de nosso desejo. Nunca entendeu. A razão é o que menos importa ao amor.
Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).
26 de May de 2006 | 12:58 PM


Por esta (e outras...) não doeu nada acordar - sem dormir - as cinco da manhã pra te levar ao aeroporto com Ana aqui em São Paulo. Lindo texto, lindo, lindo...
Por: Mariana Morango | May 26, 2006 05:27 PM
Gostei muito do texto.
e esse final... q frase perfeita.
parabéns!
Por: marina | May 28, 2006 02:27 PM