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Me dê colo

Na metade do caminho, meu filho avisa que não consegue caminhar e pede que eu o carregue. Ele já tem quatro anos e dezoito quilos; é suportável levá-lo durante mais oito quadras. Educado, ele pergunta se está pesado, minto que não, que ainda está leve como seus cabelos castanhos. O vento vive fazendo penteados novos em meu menino. Antes de crescer em chuva, o vento é cabeleireiro.

Os adultos também precisam ser carregados. E como precisam! Nos relacionamentos, haverá um dos dois que não conseguirá mais andar. Por cansaço ou por desânimo, por fraqueza ou falta de esperança.

Nos corredores de casa ou do trabalho, sua mulher vai ficar pequena, com a saia plissada e as meias altas da escola e vibrará compaixão na direção de seus ombros, louca para pedir colo. Buscará a certeza de que contará com alguém durante um pequeno percurso a recobrar a força da vontade. Quer fungar o seu cheiro. Segurar-se nos botões de sua camisa como se fossem os olhos de vidro de seu antigo urso. Dobrar os joelhos, para pegar altura no balanço. Ela cresceu, tem filhos, trabalha, toca a residência, nada a impede de fartar os pés. Um lampião é pouco no quarto, há a necessidade de acender as mãos.

Depois que crescemos, não é permitido emitir sinais de fraqueza: chorar, vacilar, confundir-se. Pois logo seremos taxados de depressivos. Dez minutos de desconsolo e somos mandados ao psiquiatra. Temos que ser sempre fortes, convictos, impermeáveis. Mas sem um colo a pessoa pode recuar. Pode brigar. Pode arrepender-se de ir adiante. Pode se isolar. Pode cortar amizades. Pode desejar morrer. Pode divorciar-se de seu anjo da guarda. A criança intacta nos ouvidos não suporta a sucessão de críticas, de pressão, de decisões para avançar, sem ao menos deitar em movimento num colo paterno do marido. No colo paterno do namorado.

Os homens da mesma forma carecem de um colo. São barbudos, peludos, enormes, mas a alma não pesa pele e ossos. A alma é a falta de peso. A falta de peso é o que mais pesa. A alma é fraquinha, é raquítica, é desidratada. A alma toma soro, toma orvalho, toma a chuva das calhas. Bebe o que vai na concha da mão. Boca pequena. Boca devagar, estômago apertado de ave, estômago que cisca.

Quando o homem não consegue mais andar, serão nulas as palavras de incentivo, o otimismo dos livros, o conforto das idéias, a segurança da casa. É o momento de carregá-lo. Momento de dizer: - pode subir, eu o levo. E não se importar com a dor dos braços, a dor das pernas. Deixar que ele seja a vontade de dormir o seu corpo para recuperar a memória do dele.

Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).

11 de May de 2006 | 09:06 AM

Como são belos os seus textos.

Pungentes!

Este, lembrou-me de uma das músicas preferidas do meu pai.

"Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas"

Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)
Gonzaguinha

Por: Ana Luisa Lima | May 11, 2006 08:40 PM

texto belíssimo, me tocou mto.

Por: marina | May 12, 2006 03:25 PM

FIVE thumbs up.

Gostei bastante

Por: marcelodeguchi | May 15, 2006 04:18 AM

É.
Um texto tão sincero, tão cheio de verdades... e tão simples.

Por: Deni | May 16, 2006 10:43 AM

 
 




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