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Minhas pálpebras são potes de sorvete

Pense nos filhos e será mais homem. Eu talvez não amadurecesse por mim, amadureci para criar meus filhos. Amadureci porque era jovem, tinha 20 anos, e não podia deixar minha menina sem um pai. Não poderia me deixar sem um filho.

Perdi minha adolescência, mas ganhei todas as fases da vida dela. Na época, amigos falavam que era loucura, que iria estragar minha vida profissional, que sacrificaria as festas, os namoros e a juventude, anularia as possibilidades de viajar, o espaço na literatura. Fui pai cedo antes do diploma. Fui pai cedo antes do casamento. Fui pai cedo antes de trabalhar. Mas eu me formei, eu trabalhei justamente porque era pai. Esforçava-me para não dormir nas aulas, fragilizado por andar pelos corredores a cuidar da insônia e cólicas da pequena. Não alcancei as melhores notas, porém não comemorei sozinho.

A cadeira de balanço foi minha cama. Mariana no pescoço como minha manta de inverno, meu agasalho. O cheiro doce dos cabelos - se eu procurar em minha boca, ainda o encontro. Ela não complicou minha vida, ela apressou minha vida. Ela não me impediu de fazer nada, ela me ajudou a fazer tudo o que adiava. Tantas vezes chorei e tantas vezes os filhos se anteciparam (seus dedos são pálpebras mais rápidas) e me fizeram rir do desespero. Comeram minhas lágrimas com colherinhas, raspando o sorvete no pote.

Não sou o que vivi. Sou o que ouvi. Sou suas vozes subindo as escadas, pulando em minha cama de manhãzinha. Sem eles, não teria algo para contar, não teria como me começar. Mariana me tornou pai do Vicente, quando ele nasceu 8 anos depois.

Recordo o jeito que fatiava os cabelos das crianças, pondo as franjas para o lado esquerdo, repetindo o gesto que odiava de minha mãe. E como amo o que odeio. Recordo de minha mãe colocando a comida primeiro em seu punho, o feijão era seu perfume de festa, e eu fazendo o mesmo com a mamadeira para testar a temperatura do leite. Eu sou mais homem porque meus punhos são de leite. Fermentaram as veias. Fenderam outras linhas do destino. Emagreceram as mãos para que segurasse com mais firmeza a água. Recordo do meu filho na garupa, equilibrando seu peso em meus ouvidos. Ele esticava as orelhas como seus retrovisores. Eu sou mais homem porque ele me guiava. Passei a separar a roupa após nascerem. Antes, amontoava as cores. Criei as gavetas das camisas, dos cueiros, dos blusões, das calças. Criei as gavetas das fotos, dos documentos, dos brinquedos, dos bonecos. Criei as gavetas dos meus joelhos.

Hoje me apanho cortando a carne em pedacinhos para mim. Como se fosse transportar para o prato de um dos meus filhos. Eu demoro mais na mesa. Demoro mais para me levantar. Sou mais homem devagar, sou mais filho.

Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica, Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (Alaúde, 2004) Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).

20 de April de 2006 | 01:52 PM

Absurdamente lindo isso!
:)

Por: Islane | April 21, 2006 01:33 PM

ei, muito legal... eu que ainda estou naquela idade em que criança é sinônimo de estorvo confesso que fiquei com uma pontinha de inveja e até uma certa curiosidade perigosa...

Por: andré sala | April 22, 2006 01:06 AM

 
 




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