Recentemente perdi alguém importante e passei pela experiência de um funeral.
A não ser que você morra antes disso, durante a sua vida você também passará pela experiência de um funeral desse tipo – ou mais, provavelmente.
A não ser também que não goste de ninguém e não tenha entes queridos.
Por isso, quero compartilhar algumas coisas que aprendi e de que, no momento, consigo lembrar.
- 1. Um funeral é realizado para os vivos. Tenha certeza de que o morto não liga para essas coisas. Quando se fala em homenagear a memória do morto, refere-se à memória que os vivos têm do morto. Se os mortos têm memória, isso a partir dali é problema dele. Por outro lado, se o morto também precisar lidar com a perda, você também já não tem nada a ver com isso.
- 2. Muita gente virá lhe falar coisas – algumas delas íntimas – e, depois, você vai se perguntar, “afinal, quem é esse sujeito que veio falar comigo?”. Quase todos irão tratá-lo como um antigo conhecido independentemente disso. De certo modo, isso não está errado, pois a morte e a dor por ela causada são bens igualitariamente distribuídos entre todos os humanos.
- 3. A vida também é igualmente distribuída entre todos, mas nem todos fazem tão bom uso dela: logo a empatia não é a mesma nas celebrações da vida e, por isso, nessas ocasiões não é tão comum que pessoas que você não conhece lhe tratem dessa maneira – como se o conhecessem -, com tanta freqüência quanto em um funeral.
- 4. Depois que alguém morre, alguns aspectos – podem ser bons, podem ser maus (depende) – que você não conhecia dessa pessoa aparecem. Afinal, ela não está mais presente no mundo para controlar os seus segredos, que então passam a pertencer a todos. Alguns desses aspectos podem vir à tona já durante o funeral.
- 5. Chega um momento em que uma rodinha de parentes se forma do lado de fora da capela, para contar piadas ou histórias que não têm nada a ver com o morto. Nem mesmo uma pessoa absolutamente morta no meio de uma sala, dentro de uma caixa de madeira, cercado por velas e coberta por flores consegue ser o centro das atenções o tempo todo. Acho que há uma lição a se tirar disso.
- 6. Algumas famílias só conseguem se reunir integralmente em funerais. Releia os itens 2 e 3 e você entenderá porque a morte, na maioria dos casos (não é uma regra absoluta), consegue aproximar mais do que a vida.
- 7. Em determinado ponto, você vai se sentir como se estivesse desempenhando um papel que já viu outro filho, filha, esposo ou esposa desempenhar em outro funeral. Talvez tenha medo de, como um dos protagonistas da situação, estar fingindo: mas não se preocupe isso é apenas você percebendo-se subitamente igualzinho a todos os humanos.
- 8. Alguém – provavelmente mais de uma pessoa – falará que o defunto aparenta apenas estar dormindo. De fato, por mais que você saiba que o defunto é isso, um defunto, e por mais racional que se seja, você terá a sensação extremamente real de que ele levantará dali a alguns instantes, pedirá um café e voltará para casa com você.
- 9. Independentemente do tamanho de sua tristeza, se você participa e acompanha integralmente o funeral, você sente uma estranha sensação de alívio ao final, quando o caixão é enterrado ou o forno crematório é ligado.
- 10. Durante o funeral você não fica triste o tempo todo. Provavelmente você irá se juntar em algum momento à rodinha de amigos e parentes do lado de fora da capela para contar uma piada.
- 11. Quando alguém muito próximo morre, você tem uma pálida noção de que esse negócio de morte pode ser sério mesmo e, ei, quem sabe, um dia, possa acontecer com você também. Talvez seja hora de começar uma vida decente.
- 12. De fato, quando se chora o fim da vida de um ente querido – ou mesmo de um semelhante desconhecido -, o verdadeiro fundo desse choro, é por nossa própria morte individual e coletiva, nele revelada. Acho que eu já disse que um funeral não se realiza pelos mortos, mas pelos vivos, não disse?
Segundo o poeta renascentista John Donne:
Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
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16 comentários para "12 coisas que eu aprendi sobre funerais"
Muitas dessas suas observações eu já havia percebido, mas gostei muito de vê-las assim “ordenadas”.
A família de meu pai é dessas que só se encontra em funerais. E não é porque não se ame. Simplesmente cada um vive sua vida, em cidades diferentes… e nunca ninguém “tem tempo” de ir visitar o outros nas férias, por exemplo. Mas nos funerais… com certeza. então, fatalmente os encontros viram festa!
Eu lembro disso tudo no funeral da minha mãe.
E lembro da dor e da confusão mental…
E também das piadas!
Um beijo, meu querido.
Força sempre!
Ma
concordo contigo. acabei aprendendo a maioria dos itens da lista neste tipo de ocasião.
Tenho muita dificuldade em lidar com esse assunto, de pensar, mesmo sendo um fato, óbvio pra todo mundo, a morte seja dos entes queridos quanto a minha mesmo.
Nó na garganta. Lembranças.
*Odeio velório.
A respeito do item 9.
Eu tenho uma questão: o morto já passou por todo o sofrimento em vida, por funerais inclusive, e agora está livre de tudo isso. Será realmente que é do desejo dele que nós os vivos, soframos ainda mais com esse ritual (bizarro e sem sentido pra mim, apesar dos outros itens relacionados aqui fazerem algum sentido) ou ele gostaria que fôssemos poupados?
Eu como futura falecida desejo poupar meus entes queridos desse culto ao sofrimento.
P.S. Você esqueceu de colocar um item: muitas pessoas vão ao funeral para se certificarem de que os que ficam choraram. Pessoas desse tipo acreditam que essa é a forma de medir o sofrimento e dor.
P.S. nº2 – Eu fui obrigada a ir ao funeral do meu pai. Mesmo levantando a questão acima. Eu não precisa ter essa lembrança.
Flávia,
julgo que os rituais de funeral não são cultos a dor. A dor não precisa ser cultuada, pois acontece independentemente de haver rituais ou não. Eles são necessários à assimilação da idéia da morte. Vide o que acontece com os parentes de pessoas que morreram, mas não tiveram um corpo para enterrar: é comum a sensação de que o desaparecido entrará pela porta a qualquer instante – ainda que racionalmente saiba-se que ele está morto. O que vamos convir, é torturante. Os rituais de funeral – em qualquer cultura – servem para digerir e aceitar a idéia da morte de alguém. Racionalmente você pode até entender a morte, mas o entendimento emocional é mais lento. O físico mais lento ainda. Eu mesmo só vim a entender emocionalmente a morte quando, ao assistir a uma série, tive o impulso automático de ligar para meu pai para falar sobre ela. Mas nunca mais poderia fazer isso.
Beijos!
Alessandro,
Esse texto conseguiu me abater mais que o recente falecimento do meu tio quase desconhecido e o anuncio do ineitável, e Deus queira tardio, fim da minha tia que se descobriu com câncer.Nos dois casos o que me preocupa mais é a dor dos meus pais, do meu pai principalmente que começa a pensar mais na sua própria morte, na insignificancia da sua própria vida e acaba por me levar no mesmo caminho.
Pior que isso, acho que não é o “morrer” que assusta o futuro morto, mas o não ter vivido.
bjos
É… parece que só aprendemos certas lições frente à morte.
Já passei pela experiência de um funeral, por duas vezes. Na primeira, ainda era uma adolescente (hoje sou uma criança!rs..) e reagi como a Flávia. Não via nenhum sentido em tudo aquilo. Depois da segunda, e mais algum tempo, fui entender que isso é realmente um ritual para quem fica. Somos nós, os que ficamos, que precisamos lidar com a morte, digerir as perdas. E encarar a vida com novos olhos.
Você descreveu exatamente o que acontece nesses momentos! inclusive as rodinhas de piada lá fora…
Abraços!
“Tem coisas que só Alessandro Martins faz por você!”
Já eu nunca fui a um funeral. Quando criança porque minha mãe quis me poupar (e os funerais mais importantes da família aconteceram naquela época). Já adulta, por uma séria de coincidências e por ter medo. Medo não, pavor de cadáveres.
Hoje vejo isso como uma falha. Tenho medo de um dia ser protagonista de um funeral e não saber absolutamente nada, de ser uma situação muito chocante.
Ler o teu texto fez com que eu me sentisse um pouquinho melhor (e, por que não? encorajada) sobre esse assunto. Obrigada mesmo.
Pois.. sou PHD em funerais e vc descreveu com exatidão todo o “ritual”…. e o que mais me chamou a atenção foi exatamente a sensação de “alívio” quando tudo acaba!
12 coisas que eu aprendi sobre funerais…
Quando eu perdi uma pessoa importante, aprendi algumas coisas interessantes……
Estou lendo o livro “O vendedor de sonhos”
e hoje cheguei ao capitulo em que ele da uma palestra a varios empresarios em um cemitério …
pra não me aprofundar muito no livro, simplesmente o recomendo, e digo mais, é um dos livros que todo mundo deveria ler…
Abraços !
um dia meu falou uma coisa comigo e eu formulei uma frase e ele nunca esqueceu disso e nem eu.
“Chore por alguém em vida porque as lagrimas depois da morte só servirão para molhar o tumulo!”
eu sempre digo isso quando vejo alguém não atendendo seus pais que estão velhos, ou tratando mal algum ente já de idade
É, tbm perdi um ente querido a pouco tempo, e foi o primeiro funeral de alguém querido que eu já presenciei.
Sobre o alívio que dá quando o corpo é finalmente enterrado é realmente verdadeiro. Nossa, eu não sei porque inventaram essa coisa toda de velar corpo, todo aquele sofrimento que os parentes tem que passar durante uma noite inteira, ali, olhando prum defunto e sofrendo pela perda! É mto triste! Isso não devia existir. Como vc disse, é uma cerimonia feita pros vivos, sei lá, meio que pra fazer cair a ficha de que a pessoa realmente morreu, e que não tem mais jeito. Acho que algumas pessoas ainda têm esperança de que a pessoa simplesmente levante do nada durante o funeral, e tdos descubram que foi só um mal entendido. Algumas pessoas precisam passar por um velório pra ficha realmente cair.
Mas que é mto, mto triste, isso é.
E extremamente desnecessário. As pessoas deviam morrer, e ser enterradas logo em seguida. Nada de corpo exposto, nada de lágrimas sobre o caixão.
Apenas a má notícia e o tempo pra superar a dor da perda.
Sinto muito pela sua perda, força aí =)
Eu fui para um funeral recentemente e , ei, quem sabe, um dia, possa acontecer comigo também. Talvez seja hora de começar uma vida decente.
Ao ler os comentários anteriores, há a sensação do culto aos mortos ser uma modernice, uma coisa dos tempos actuais e despido de qualquer sentido. Mas não, estes rituais vêm desde tempos ancestrais, sem interferencia de religiões e são a necessidade da pessoa de despedir e tomar a consciencia do seu eu, de ser mortal que somos. Há a necessidade de saber que o outro partiu, há a necessidade de fazer um período de nojo, de luto, para se aceitar a partida dum ente querido. Todos nós fazemos esse “culto” quanfo um ente querido parte, de uma forma íntima ou social, mas fazemos. Vejam o caso de uma pessoa que desaparece e a família não sabe se morreu ou não. Vejam o quanto sofrem. Muitas das vezes até pedem que a pessoa apareça morta..para fazerem o tal corte, a despedida, para que fiquem bem, ..consigo próprias. O ritual continuará, quer queiramos quer não.
Rui
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